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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ela possui a estranha mania de ter fé na vida

Retrospectiva 2011

Eunice Terezinha Pires, 46 anos, agente comunitária de saúde.

É interessante refletir sobre o que sobra depois de invadir a vida de alguém em busca de alimento para uma reportagem. Quase sempre, fica pouco: só o telefone na planilha do excel. Em outras situações, no entanto, acabo cativando o outro e me torno responsável pela afeição. No começo do ano, conheci a Eunice, uma mulher de simpatia larga e abraço sincero. Nossa ligação foi imediata e ela confiou a mim um pedaço da sua história, sem medo, sem frescura. A mulher telefonou logo depois da publicação da matéria que falava dela e me disse coisas bonitas. Aí eu deixei de ser repórter e ela deixou de ser personagem. Não demorou para a agente de saúde se tornar assinante do jornal. "Todo dia pego a edição e procuro uma foto sua para mostrar para a minha filha, mas nunca encontro. Não tem jeito mesmo, né? Você só fica atrás das câmeras", reclamou, na semana passada.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pedrão, a ximbica e o tal do YouTube

Retrospectiva 2011


Pedro Bonavigo, 66 anos, agricultor e músico. 


“Pegue a toalha e o sabão, embarque na ximbica e vamo embora pro Jordão”. Com o xote contagiante aliado ao videoclipe inusitado, Pedrão Gaiteiro, de fato, “arrumou um jeito para sua diversão”. A ideia de produzir o clipe partiu de familiares. Depois de ponderar um pouco sobre a proposta, ele topou. Por consequência, a esposa Vitória aderiu ao projeto. “Eu perguntei se ela queria que eu arrumasse um 'avião' de biquíni para aparecer na filmagem, aí ela topou na hora”, brinca. O casal seguiu o script a risca e se saiu bem no momento de interpretar os versos. Foi sucesso. E ainda é. Até ontem, o vídeo tinha sido exibido 31.865 vezes no YouTube. “Eu nem sei mexer nesse ‘troço’”, confessa.


Publicado na íntegra no Diário de Guarapuava, em maio.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Alemão Bock e o comércio da sorte

De todas as atividades que já desenvolveu ao longo dos seus 56 anos, Alberto Ricardo se encontrou na ocupação de cambista lotérico. Fazendo isso, ele anda por aí, interage com pessoas e os dias passam sem dor. Bom humor é algo que lhe apetece.
Conhecido como Alemão Bock – em referência à cerveja preta de origem europeia – se sente bem quando as pessoas são simpáticas com ele nas ruas. Se alguém lhe injuria, logo se abate, mas procura espairecer e não jogar em cima de outra pessoa o rancor.
Alberto vende jogos da mega e da quina, mas na vida já trabalhou como jardineiro, vendedor de picolé, engraxate, guarda de presídio, peão em fazenda e como catador de recicláveis – hoje ainda coleta algumas latinhas para colaborar com a renda familiar.
“O que eu gosto mesmo é de ser cambista lotérico. Eu levo comigo a amizade, a confiança do pessoal, a credibilidade e as piadas. Inclusive, ninguém me deixa em paz nessa parte. Às vezes eu estou trabalhando e me fazem parar para contar uma piada”.
A relação com a atual companheira já dura “uns 15 anos” – Alberto não é muito bom com datas. Com ela a vida é boa, embora enfrentem contratempos. Por mais difíceis que as coisas estejam, ele tenta ser uma companhia fiel em lembrança a épocas passadas, numa troca de gentilezas.
“Essa mulher me ajudou bastante quando eu bebia. Ela percebia que eu não podia sair sozinho, pois perdia as coisas. Então, se eu viesse para o lado esquerdo, ela me puxava para o direito. Se eu cambaleava para o direito, ela me empurrava para o esquerdo. Assim eu não caía”, disse, usando de uma comparação até poética, mesmo sem se dar conta.
Alemão afirma que deixou a vida de embriaguez há uma década. Desde então se apegou mais ao transcendental, e costuma ouvir com atenção as orações dos padres nas rádios. Fora trabalhar, ele não sabe muito bem o que gosta de fazer. “Quando é domingo, prefiro ficar em casa. Só saio para ir à panificadora quando tenho dinheiro para comprar uma carne assada. Se dá uma soneirinha à tarde, eu viajo para Roncador, que é a minha cama [risos]”.
Quando o assunto é a sua história, Alberto fala como quem tenta costurar retalhos desconexos. De muitas coisas ele não tem certeza. Sabe que nasceu em São Paulo, no município de Lavínia, mas desconhece como chegou a Guarapuava, quando foi adotado por uma família local. “Tem duas ou três histórias que eu já ouvi e não sei qual é a verdadeira”.
Ele tem algumas filhas espalhadas pelo mundo, as quais não vê há bastante tempo. Chega a dizer que seu principal sonho é conhecer uma delas, sobre quem tem poucas informações. “Eu queria ir a um programa como a Porta da Esperança do Silvio Santos [que deixou de ser apresentado na década de 90] e encontrá-la”.
O pai que criou Alemão faleceu. Uma irmã também adotiva mora com a mãe em Curitiba. De acordo com ele, a família paga o aluguel da sua casa. “Nós nos damos bem, mas não estamos conversando muito ultimamente”.

E assim vive o Alemão Bock, que não é muito de ganhar, mas que tenta fazer o melhor que é capaz só para viver em paz.


Você utiliza uma tática de venda?
Acho que não, mas uso frases, como “comprar de preto na sexta-feira é bom para tirar o azar”. Algumas pessoas nem jogam na loteria, mas compram o bilhete por causa das minhas piadas. Às vezes dizem: “Negão, pega esse um real para a pinga”. Eu respondo: “para a pinga não. É para o café”.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O melhor presente é estar presente

Esta semana, a família virou a dor pelo avesso e o dia do reencontro chegou, sem aviso.
“Parece que a viagem de Rondônia a Guarapuava foi eterna. Depois de passar por Cascavel, pensávamos que estávamos chegando em todas as luzes que víamos pela janela! Mas não era. Aquelas horas dentro do ônibus foram mais longas do que todos os anos de distância [mais exatamente 29 anos]”, conta Altair.
“Quando ele ligou dizendo que estava na rodoviária, saímos correndo. Eu acabei perdendo os chinelos, a mãe foi bem descabelada. Meu carro não funcionou, peguei as chaves do meu irmão e nem avisei. Foi uma emoção enorme”, lembra Alaor.
E eu, que nada tinha a ver com tudo isso, acabei recebendo de presente a possibilidade de contar a história. Leia neste fim de semana, no Diário de Guarapuava. E Feliz Natal!


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cores escondidas

Novamente digo que a beleza não é luxo, mas uma necessidade de todos os seres humanos. Veja o exemplo de Dona Tereza e Seu Eduardo: eles são pessoas do tipo mais humilde que se pode encontrar nas ruas da cidade. Tiram o sustento dos descartes alheios, coletando materiais recicláveis para vender ou reaproveitar. Vários objetos são incorporados pela família e passam a ser parte da paisagem do pequeno barraco de dois cômodos onde o casal mora. Quem olha sem atenção para a casa, pode ver apenas sujeira e miséria. No entanto, ao observar a estante, perceberá embalagens de xampus Seda que esparramam cor no ambiente. Será que são só plásticos vazios? Ou são poesias que acalentam olhos cansados no fim do dia?


sábado, 10 de dezembro de 2011

I'm here

Ainda na onda das dicas meio "ultrapassadas", segue um breve filme sobre o amor. Lindo.


Inspirador

Ok, estou sendo retardatária, pois o projeto acabou em outubro. No entanto, as imagens lá disponíveis são inspiradoras e valem o registro. A ideia do fotógrafo canadense Julian Bialowas foi postar uma foto com uma frase por dia. Simples assim. Confira o 365q.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Por que uma menina de 13 anos não deve namorar?

Eu não gosto de generalizar. Devem existir meninas (e meninos) de 13 anos que sejam maduros (embora eu nunca tenha conhecido algum). Dia desses, estava andando tranquilamente quando uma garota me interrompeu desesperada...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Semáforo vermelho para João

Conheci João Maria no mês passado. Quando voltava para casa após o expediente, o semáforo ficou vermelho e ele meio que me ofereceu umas balas de goma. Fiquei com dó dos seus olhos e comprei. Lá se foi um real. Noutro dia, o mesmo sinaleiro quis ser rubro na minha vez. Perguntei: “como vão as vendas?”. Ele, sem jeito, respondeu: “xi, bem fraco”. Tarde dessas resolvi conversar com mais calma e entender o que o levou a comercializar Gomets naquela quadra. Embora já prevendo, constatei que o homem que vende doces tem uma vida amarga. Papo vai, papo vem, combinamos que eu escreveria sobre ele no jornal. João se matriculou há algumas semanas num centro de educação de jovens e adultos, pois quer aprender algo com o objetivo de conseguir um emprego que o trate menos como animal de carga e mais como ser humano. Ontem, bem quando o semáforo fechou, deixei o exemplar com ele, que olhou as páginas rapidamente e guardou a edição na bolsa verde musgo que abriga as caixas de balas. Hoje, no mesmo cruzamento, quis saber sua opinião. João, de 42 anos, falou: “Legal a minha foto lá. Pena eu não saber ler, daí não entendi nada do que você disse de mim”. O semáforo abriu e eu acelerei. Aquelas palavras foram digeridas bem depois do almoço.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Entre louças e sonhos

Mari, 54 anos, empregada doméstica.

Como você se define?
Eu sou a Mari cheia de manias, para quem tudo tem de ser certinho e que é exigente consigo mesma.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre pedras no caminho

Acir não quis ser coitado. Não foi e nem tem sido fácil sustentar a escolha. A saga começou na infância, quando não o queriam na escola junto das outras crianças. Diziam que não tinham estrutura suficiente para ele, seria complicado demais. Aprendeu a ler e a escrever dentro de casa, e a pintar quadros nas oficinas da Apae. Várias pinturas estão penduradas na sua sala. Só aos 15 pôde se matricular no ensino regular, por isso, percebe que as coisas melhoraram bastante hoje em dia, pelo menos na teoria. O problema é que ainda não é o suficiente - são tantos pequenos desaforos no dia a dia, tantas pedras no caminho. Acir já recebeu olhares de piedade, de dó, de estranhamento, mas não deixou os vários olhares piorarem o seu. 
"Às vezes eu ia com meu irmão à farmácia. Eu queria comprar algo e meu irmão me acompanhava. O atendente perguntava para meu irmão o que eu queria. Meu irmão dizia: 'eu só vim junto, pergunta para ele, ué'. Era como se, por estar na cadeira de rodas, eu não tivesse autonomia alguma", relembrou. "Às vezes eu me sinto à margem. Mas já não abaixo a cabeça".


Reportagem completa publicada na edição dos dias 27 e 28 de agosto do Diário de Guarapuava.

domingo, 30 de outubro de 2011

Sobre escolhas

Aos 2 anos e 4 meses, João Vitor tem muitos brinquedos. No quarto onde todos se encontram, peço para que o menino escolha o "mais legal do mundo inteiro". Animado, ele engatinha entre animais de pelúcia, carrinhos hot wheels, caminhões, tratores, ferramentas, bolas, legos, objetos barulhentos e 'Bens' 10. De repente, olha para mim com jeito de quem teve êxito na missão. Sorri e levanta um tipo de bode desajeitado, daqueles usados para preencher espaços do isopor nas maquetes da escola. João afirma sem  dúvidas: "É esse aqui, tia Schelya".


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Malandragem das ruas

Vez ou outra as boas histórias estão nas esquinas. Como quando ele, de 28 anos, cruzou meu caminho em um dia ensolarado e logo disse que era chapa de segunda a sexta-feira e engraxate aos sábados. Contou que saiu de casa no começo da adolescência, porque apanhava muito, mas, diferente do que possam pensar, nunca se envolveu com drogas e sequer é viciado em álcool. “É difícil resistir, mas não é impossível. Preciso ser meu próprio exemplo”. A malandragem das ruas, é claro, ele tem. Dorme nos becos da cidade. Quando sobram uns trocados, canta no karaokê as canções de Gian & Giovani e um dia chegou a ouvir elogios. Sentiu-se importante.


domingo, 25 de setembro de 2011

Luas cheias

Para Walter Carvalho, a capacidade de contemplação do homem está se exaurindo. Não existe mais tempo para lero lero com o vizinho. "Li em algum lugar que se você vive 60 anos, não terá visto mais de 20 luas cheias". Ele, que afirmou ter se tornado fotógrafo porque não conseguiu ser pintor, quer viver em um local onde seja possível perceber a transformação da natureza, "a ressurreição da flora depois da chuva". Em sua entrevista para a série Sangue Latino, disse que sem utopia não há evidência de futuro. "O artista não tem cura e tem de estar afinado com a ideia de que a arte foi feita para mudar o mundo. É preciso que se diga isso sempre". O cineasta de Terra Estrangeira e Abril Despedaçado atualmente escuta Raul Seixas.

sábado, 24 de setembro de 2011

Erro permanente

Recentemente, vi algumas imagens que incomodaram. Meninos e meninas africanos extraindo cobre do lixo eletrônico 'importado' da Europa. Em Gana, segundo o fotógrafo Pieter Hugo, os moradores da favela próxima ao lixão chamam o local de Sodoma e Gomorra. Jovens são envenenados diariamente pelos descartes de placas-mãe, monitores e discos rígidos. O título da série de fotografias de Hugo é Erro Permanente. Confira: http://www.pieterhugo.com/


domingo, 18 de setembro de 2011

Não é mágica, é ciência

“O segredo é não colocar massa em cima da forminha e deixar só metade dela no óleo bem quente. Se afundar, não vai desgrudar. Se fizer como estou falando, depois de um tempo a massa abre feito uma flor. O bolinho fica sequinho, crocante e não engorda, eu garanto. Então você recheia com o que quiser. Nesse caso, estou colocando açúcar com granulado e leite condensado. Se a sogra estiver em casa, dá para rechear com concreto e vidro – é brincadeira, só para descontrair. Na hora de preparar a receita, não é para colocar fermento, só as coisas que eu estou dizendo, ou vai dar errado. Caso precise, aqui (mostra um papel) tem meu celular. Pode ligar qualquer hora do dia e até a cobrar”. 
Alexsandro, de 39 anos, ama ser vendedor de rua. Na área desde menino, fala alto, se destaca no calçadão, faz piadas sem dificuldades e interage com o público. “Vou morrer trabalhando nisso. Aprendi com meu pai, que aprendeu com o pai dele. Espero ainda ter um filho para ensinar”. Em menos de 15 minutos, repetiu a receita da sua especialidade nove vezes. Ele distribui o bolinho gratuitamente aos curiosos que param, pois tem o objetivo de vender a forminha “de fabricação própria e exclusiva” ao valor de R$5. O nome da obra é Artesanato Delícia, “artesanato porque sou eu que faço e delícia porque o bolinho fica delicioso”, explica. No primeiro dia em Guarapuava, comercializou 120 unidades do instrumento que parece mágico. Depois uma semana na cidade, zarpa para outra. “Minha vida vivo viajando. Eu e meu pai dormimos no carro mesmo. Conheço todo canto desse país. Nunca trabalhei de empregado e espero nunca precisar”.




sábado, 10 de setembro de 2011

Veja bem

O mesmo menino que estava vendendo algodão-doce no parque fazia malabarismos com três limões no meio tempo em que o semáforo da avenida brilhava em vermelho. Não sei se era o mesmo menino. Eram os mesmos olhos, sim, disso eu lembro bem. Com medo – talvez nem sempre deles, mas da nossa reação – raramente miramos aqueles olhos. Olhos que garantimos que são diferentes dos das crianças que brincam no parque enquanto comem algodão-doce. Veja bem.


domingo, 4 de setembro de 2011

Ele tem nome

Fazia um bom tempo que eu queria saber. Sempre apressada, passava ao lado do pedinte e seguia tricotando possíveis histórias. O que levou o homem a ficar todo santo dia encostado no mesmo poste, com as mesmas mãos em forma de concha? Para muitos, ele se tornou uma figura quase transparente. Que existe, todos sabem, mas poucos se importam, desde que não atrapalhe o percurso do banco ao carro, da loja à outra loja. Em vez de passar, naquele dia eu parei.

domingo, 28 de agosto de 2011

Motivos para gostar

Perto das 18h, ele mira a mangueira em mim. 
Faz ruídos que lembram o som da água jorrando, algo como "chiiiiiiii". 
A torneira está desligada, mas João ri mesmo assim. 
Pergunto se ele gosta de água.
- Gosto bastantes.
- Por quê?
- Dá pra molhá a graminha, molhá ropas, cabeça, naliz, o pé. Na cozinha, gosto de lavá copos. A toinêla faz chiii, chiiii, chiiiiii...
E põe-se a tagarelar eufórico a respeito de todos os benefícios que a água traz para a sua vida. E eu penso: que beleza gostar de alguma coisa e não economizar palavras.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Respostas semelhantes às questões banais

Talvez no varejo sejamos bem distintos. Europeus, africanos, asiáticos, americanos. No atacado, porém, acredito que não existem tantas barreiras assim. É o que mostra o projeto Sete Bilhões de Outros.

domingo, 24 de julho de 2011

A saudade

As músicas tocavam na ordem aleatória e a tarde estava fria, embora com restos de sol que de quando em quando entravam pela janela e deixavam o quarto um pouco abafado. Exatamente quando li as últimas linhas do livro ("É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo"), Zeca Baleiro cantou "a saudade é um filme sem cor que o meu coração quer ver colorido".

sábado, 25 de junho de 2011

Sobre fantasmas

“Martita não voltou a me chamar, nem me escreveu depois, nem soube dela. É claro que pode voltar a bater na minha porta no momento menos pensado, e muitas vezes fantasiei respostas vingativas. Por exemplo, dizer pra ela: “não, agora é tarde demais” e bater a porta na sua cara. Mas são só fantasias que, até bem pouco tempo atrás, eu juraria que era capaz de realizar, mas não, agora acabam de soar uns golpes na porta e estou completamente desconcertado. Passou muito tempo e eu já não sei se sou capaz de reconhecer o exato ‘toc-toc’ de Martita, acho que não deve ser ela, deve ser outra pessoa, outra confusão minha. 'Toc-toc’. Mas com Martita nunca se sabe e é obvio que eu não sei matar fantasmas.” 
Mempo Giardinelli
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domingo, 19 de junho de 2011

Cuidado

Eu e João fomos feitos para desentender. Por isso nossa relação alterna do afeto extremo à discordância imediata com a mesma facilidade que ele tem para quebrar coisas. Mas, se é domingo, e o céu está claro, estendo o antigo lençol azul com flores amarelas na grama, e tudo se ajeita. Os únicos sons disponíveis são o do vento por entre as folhagens do quintal e o da voz dele cantarolando músicas de composição própria. Não falamos nada um com o outro, só que ele me olha nos olhos e sorri, desatando os nós. Quando levanto e coloco-me num caminho qualquer perto da escada, ele me adverte com as mesmas palavras que usei horas antes: “cuidado, tia Schelya, é peligoso”. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Conhecedora das flores


Quem olha para os bordados de Lina logo pensa que não se trata de produção manual. As máquinas fazem coisas parecidas, sim. Em 1947, porém, enquanto o noivo servia o exército, ela pacienciosamente preparava o enxoval. Trabalhava na roça e levava os panos, fios e agulhas na bolsa. À noite, sob a luz de um lampião de querosene, criava flores. Nem preciso falar que não existiam sites com receitas e adquirir uma revista com dicas não era tarefa tão fácil. As cores, formas e tamanhos brotavam da sua própria imaginação. Poucos dos trabalhos daqueles dias resistiram ao persistente continuar do tempo. Alguns ela reaproveitou em outras propostas, como o belo bordado que fala em amor e foi colocado num quadro na cozinha. “Tenho vontade de ensinar o que sei, mas já não enxergo. Eu sempre brinco que minha cabeça manda, mas o corpo não quer obedecer mais”.


domingo, 12 de junho de 2011

Terceira margem

Por ter nascido órfã de sentido e capaz de sofrer daquela dor que circula entre a cabeça e o coração, tornou-se especialista na vastidão dos nadas, os quais gosta de abraçar especialmente junho. Só assim compreende o silêncio das folhas caindo [confessa que sempre olha para cenas que gostaria de tornar perenes]. Por ter nascido com poucos interesses e em dia ímpar, dispensa o acorrentar de querer-só-para-si, pois nada possui de verdadeiro além das intenções. “Para sobrar alguma coisa, melhor parar bem agora, ou a gente se empolga e dispensa o pensar”.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Um par

“Eu não envelheci. Só lembro disso quando olho o espelho”, diz ele, aos 80, completando: “Há pessoas que nascem para parar e outras que são para nunca parar. Eu sou do segundo tipo”. Sua esposa acrescenta: “A idade vai chegando, o corpo pode não aguentar algumas coisas, mas a mente está muito além. É preciso cuidar da alma”.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sobre gentes

A primeira coisa que leio quando pego a Folha de SP é o rodapé da página 4 do Cotidiano. Sim, é a seção Mortes. Os textos sempre me deixam pensando, só que fazem o estilo 'agora, enfim, o fulano tem valor'. Considero que o interessante é dar espaço para essas vidas tão ilustremente pacatas enquanto o personagem ainda pode recortar o texto e mostrá-lo para um ou outro, cheio de si e até espantado pela importância de sua história – não que ela seja algo de mais, mas bem longe de ser algo de menos. Como Pedro, que disse que vai guardar para a posteridade o pedaço de papel que revela suas táticas para permanecer na tranquilidade. Como Mari, que sempre quis que alguém contasse suas peripécias e agradeceu aos risos. Como Albino, que nem é de ler jornal, mas naquela vez fez um esforço. Tão igual disse Eliane Brum: “como se cada Zé fosse um Ulisses e cada pequena vida uma Odisséia”.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Trabalho

Em certos dias, Jorge não aguenta e chora até cansar a dor. Não derrama lágrimas somente pelas tristezas cotidianas, mas também pela cidade que não mais lhe abraça e, ao contrário: lhe mostra os dentes. Entre outras saudades, sente falta da imperceptível liberdade que tinha quando passeava e podia entrar na lojinha que bem entendesse. Ele perdeu uma das pernas sendo trabalhador, enquanto manuseava essas máquinas de deixar a cidade maior. Hoje, no Dia Internacional das Vítimas de Acidentes de Trabalho e de Doenças Profissionais, vale a lembrança.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Maria Ninguém

Então o amor deve mesmo ser o sentimento que transforma a outra pessoa na edição exclusiva. Repleta de singularidades. Entre tantas por aí, nas calçadas, séculos e filas, é somente aquela a dona dos trejeitos mais interessantes, até mesmo quando irritam. Tudo depende do jeito de olhar. Durante o casamento coletivo que uniu 220 casais em Guarapuava há alguns dias, deu para perceber que essa ideia possui respaldo e adeptos. Nem um dos dezenas de casais se importou em compartilhar o momento com várias pessoas desconhecidas. "Para mim, só estamos ele e eu aqui", explicou uma noiva de 55 anos, contente da sorte de ter vencido a catarata simbólica que embaça a visão e não deixa muitos verem como têm histórias extraordinárias. E deve ser por isso que João Gilberto cantava os versos de Carlos Lyra: "pode ser que haja uma melhor, pode ser. Pode ser que haja uma pior, muito bem. Mas igual à Maria que eu tenho, no mundo inteirinho igualzinha não tem. Maria Ninguém, é Maria e é Maria meu bem".


quinta-feira, 24 de março de 2011

Déjà vu

O menino que fugiu com o carrinho de doces não foi feliz, mas só depois de eras acabou percebendo o equívoco. “E se tivesse sido a experiência com o circo? Haveria de ser diferente? Creio que não”, ele até pondera vez ou outra na brincadeira de compor histórias que não foram suas. Alto, sério, destoando das cores que carrega numa mínima velocidade para ser bem percebido, hoje o homem se denomina apenas vendedor informal. Mal sabe o impacto que causa ao se movimentar e fazer continuar os dias. Nessa semana, não houve uma vez em que sai sem vê-lo em alguma das ruas do Centro e não teve um momento em que ele não inspirasse doçura, não por sorrisos - pois nunca os distribui - mas pelo fato de estar fazendo parte das imagens que permanecem.


sábado, 22 de janeiro de 2011

E(in)terna busca

Tenho andado ocupada na tentativa de desvendar o motivo que me leva a - mesmo depois de tantas translações e rotações – agir vez ou outra tão igual à menina de olhos curiosos que tem como entretenimento juntar tampinhas de  garrafas de cerveja durante a festa e guardá-las no copo plástico, supondo não serem apenas pequenos objetos metálicos, mas um tesouro.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Meio Zé

Naquela manhã, ele acordou meio Zé, refletindo sobre cenas da TV que vira antes de pegar no sono. Elas não paravam de circular por entre seus pensamentos matutinos e as broinhas de milho que comia junto com café. Há décadas ouvindo que início de ano é momento oportuno para recomeçar, ele fez uma triste analogia. Recomeçar mesmo só aquelas pessoas que sobraram das enchentes e tragédias fariam. Elas não têm mais paisagem, carro, casa, família, celular, cachorro, álbum de fotos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011