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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Momentos em fragmentos

No clima das retrospectivas, pensamentos retirados do diário pessoal 2010.

28 de fevereiro: Acordei 9h44, mas o rádio relógio está uns nove minutos adiante. Os armários precisam ficar de portas abertas por conta da umidade desses dias. A chuva não cessa.

22 de março: O fim de semana foi divertido.

5 de abril: Parece que estou ficando adulta, pois não me atraso.

6 de abril: Hoje a Tuquinha morreu. Depois de mais de 15 anos junto conosco. Foi o tempo que lhe deu fisgadas, tirando sua alegria e reflexos. Fica a saudade da cadela malandra que só fazia o que queria e que sabia como pedir carinho.

15 de abril: Estava andando pela rua sem enxergar, apenas indo. Foi quando um homem sentado na calçada, do tipo andarilho, perguntou: - “Por que você não olha para mim?” Continuei, mas a questão ficou na cuca.

1º de maio: Feriado, sol, vento de outono, céu azul, pôr-do-sol fotogênico, colete preto, franganza, lado a lado, gran torino. Logo dia dois.

12 de maio: Uma vez, este ano, comecei a montar um quebra-cabeça de duas mil peças de uma paisagem do Taiti. Muito tempo se passou e nem o céu está completo.

25 de maio: Sangue Novo, miojo, capuccino, frio, lâmpada trêmula, roupa molhada, Hilst, vazio, ausência, acordeom. É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.

3 de junho: Procissão rima com solidão.

25 de junho: E agora que meus pés dão a volta, para casa.

6 de julho: Mundo acumulado.

1º de outubro: E vai passar e até passou, sempre meio sem fim, como tudo e todos que vieram e logo foram de mim.

4 de dezembro: Tem dia que passa bem rápido e eu nem penso. O que fazer com a obrigação?


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Dans la rue

Uma senhora de lenço amarrado na cabeça, meia calça cor de pele, saia e blusa vermelhas e sacola plástica na mão descia a rua em cadência. Lentamente seus sapatos gastos e pretos formavam os passos, num esforço para manter a velocidade média baixa. Ao seu redor, o tempo se espreguiçava e lhe desviava o olhar. Imune, ela estava contente, há mais de séculos voltando para casa. Logo chega e quando chegar ela vai fazer um bolo salgado de fubá na antiga panela de ferro.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Meia cinza, meio azul

No dia em que conheci a senhora do homem das horas, ela não fez questão de sorrir. Mas o jeito como me olhou ao saber o que eu queria deu mostras de que há muitos segundos me esperava; logo gritou para o marido: “a moça do jornal quer ouvir as tuas histórias, em que horário você pode?”. Canelas rechonchudas, dificuldade para andar, rosto sereno, tricô a tiracolo, jeito bondoso e direto, sem enfeitar demais, sem reclamar. Ao contar os causos, o marido se referiu a ela vez ou outra. “Eu e Maria vivemos no nosso paraíso, porque não brigamos”, e a amada deixou escapar um riso de canto, balançando a cabeça como quem se acanha e quer mais. Quando ele entrou nos planos futuros, mostrando com gestos tudo o que pretendia modernizar no comércio, ela ficou em silêncio, depois me falou baixinho, com a certeza de que o esposo não ouviria: “Não ligue para esta parte, ele sonha, mas já estamos perto dos 70”. No decorrer dos minutos criamos uma relação de confiança, dia ou outro eu visitava o casal. A mulher me dava conselhos, fazia perguntas, certa tarde até pude ouvir sua efêmera gargalhada. Quando falei em ir embora, ela ficou séria, depois considerou que era mesmo o melhor para mim. Foi para trás do balcão e voltou com um par de meias de lã cinza - as que eu uso esta noite.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010