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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sobre botões

Ela gosta de ter botões coloridos nos cadernos, nos brincos e até nas blusas e nesta tarde gripada pensou com seus botões, sobre tudo e nada. É que um dia ouviu dizer por aí, acho que foi numa esquina, que na casa do Seu Botão moram muitos e muitos e muitos, e cada um tem seu papel na sociedade dos seres inanimados e redondos com buraquinhos (que seriam os olhinhos) de passar o fio e a agulha, que cutuca, -"Ai, ai". Ninguém fala sobre isso, mas há de se convir que não existe nada mais triste que ser o primeiro botão, aquele que ninguém ousa fechar, porque está muito perto do pescoço. Ou aquele que cai num dia qualquer, e nem é percebido... só depois de um tempo, quando se vai numa loja especializada em miudezas, procurar um parecido, do mesmo tom, tamanho, importância.

imagem: Getty Images.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

cenas guarapuavanas

- guará o quê?
- gua-ra-pu-a-va-nas!

- ahh...
- e é tudo sonho.

- sonho do quê?
- de goiabada.
Foto minha. Bairro Santa Cruz.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

somos quem podemos, sonhos

Como trilha sonora, uma voz rouca, melosa e quiçá suada, repete o mesmo verso sem parar. "A fila anda, amor. A fila anda". No ar, o cheiro de fritura de pastel se mistura ao aroma da chuva que cai no asfalto quente. Não tão sóbrio, o homem de boné azul que vende algodão doce, experimenta uma tarde cinza, sem açúcar, sem nada. Ele encosta o cotovelo esquerdo na cerca, e olha com um sorriso torto as pessoas que andam mais rápido do que costume, por conta dos pingos que caem do céu...
Coloca a mão no bolso da calça jeans suja para alcançar o troco da moça que pegou um algodão verde para o seu filho de cabelo laranjado. O homem pára mais uma vez, a observar o movimento, agora bate o instrumento sonoro típico dos vendedores de algodão doce enquanto olha para as nuvens, que parecem algodão...


Texto meu.
Foto de Ricardo Fabrello, disponível em
Olhares.com

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Do latim, afflictione

Amarelecida, pensei em escrever sobre o canto desesperado dos grilos, que apavoram as noites que parecem nunca encontrar um fim. Rabisquei duas linhas, e, vencida, desisti. Comecei a contar, então, o meu sonho do cochilo, mas ah, não é de se escrever assim. Insisti em jogar letras organizadas em palavras numa caixa bem guardada, no alto do armário. No entanto, hoje tudo se torna nada com tanta elegância e sutileza que nada parecem ser há inúmeras décadas empoeiradas, que dão coceira no nariz. Enquanto as vozes mudas entoam a frase feita: Tradição em não ter sentido. Senti. Sem ti. Do.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

retalho antigo

[março de 93]. Feriado de tempestades, disso eu lembro. Um dia de "sujar o pé na areia para depois lavar na água. Lavar o pé na água para depois sujar, de areia. Esperar o vagalume piscar outra vez, ouvir a onda mais distante por detrás da onda próxima...Ter saudade no final da tarde, para quando escurecer, esquecer. Ao se deitar para dormir, dormir. ".


Foto do arquivo, referência no texto à Arnaldo Antunes, "Num dia".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Gentes

Sempre quando viajo, e levo a câmera fotográfica, volto para casa olhando as imagens para escolher qual delas vai ser o "resumo". Confesso que gosto do que não é trivial. Do que foge àquilo que todo-mundo-deveria-estar-fazendo-naquele-momento. Talvez por isso eu tenha escolhido a foto abaixo para ilustrar os três dias passados. Um detalhe interessante é que o banco onde esta senhora tirava o seu cochilo vespertino ficava exatamente ao lado do palco onde o pessoal dançava axé music. Viva a diversidade!


Guaratuba-PR.
Esta foto não é pública. Todos os direitos reservados.