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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Ir para casa

Descrição de vinte e um minutos e quarenta e oito segundos do meu dia trinta de abril de dois mil e oito;

Como é costume, acabei perdendo o ônibus das dezessete e vinte e sete, que vai direto ao terminal, e o vento cortante que anuncia a chegada do inverno acabou com a minha coragem de ir para casa a pé, então esperei o próximo. Às seis horas e nove minutos ele chegou, lotado, o que é comum neste horário. Lá dentro a conversa não era alta, os olhares estavam cansados. (Todo mundo quer ir para casa, todo mundo precisa ir para casa). E é bom lembrar ainda existem os senhores mais velhos, com suas boinas e casacos de veludos, que mantêm a cordialidade e fazem novas amizades a cada passeio, despedindo-se de todos ao descer. No ponto mais escuro, entrou a mulher dos cabelos intermináveis, que só usa saias. Suponho que ela estivesse com frio.
Lá pelo meio do caminho, só se ouvia os suspiros. Os mais jovens balançando a cabeça ao ritmo das músicas dos mp4, mp5...
Ao meu lado, a mulher dos olhos negros permanecia num silêncio de palavras e gestos, segurando com zelo as suas sacolas. O seu piscar de olhos estava cada vez mais demorado. Em algumas vezes nossos ombros se encostaram, meio sem querer.
E eu queria saber o que todas aquelas cabeças de corpos exaustos estavam pensando. Seria na janta? No feriado de amanhã? No porquê da existência?
Logo os vinte e um minutos e quarenta e oito segundos passaram, e caíram no esquecimento (?).

É, todo mundo vai para casa.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O segundo que antecede o vôo.

"Escolhi o dia 20 de abril porque é justamente na lua cheia. Uma alegria você poder contemplar aquele luar espetacular", conta o padre Adelir de Carli. (em 03/03/08).

Ele se preparou para bater seu record. Desta vez seriam 20h voando, sem interrupções. O diferencial estaria no meio de transporte: balões de festa gigantes!
Desde pequeno tinha esse sonho. Quando via nos desenhos aquelas pessoas subirem aos céus apenas com os balões coloridos cheios, sentia que era isso o que lhe daria alegria, sim, era isso o que ele faria de diferente no mundo. E assim fez.
Mesmo com o tempo não favorável, partiu na manhã do dia 20 de Paranaguá, após a missa. Em outras vezes tudo tinha dado certo e ele precisava sair neste dia, para ver a Lua.
Mas os ventos o levaram para longe da rota, fazendo com ele chegasse perto do mar. Não. Isso não estava nos planos.
E as manchetes de hoje anunciam: "Padre Adelir está desaparecido".

Mas há quem pense que ele enfim se encontrou, lá, bem longe, pertinho da Lua.

Texto não necessariamente condizente à realidade.
Outras fontes:
http://www.tvcanal13.com.br

domingo, 20 de abril de 2008

Virado. Não ovo. Apenas do lado avesso, estranho, castanho. Escuro, isso sim.
Olho de brilho, de uma paz instantânea, e é certeza que um dia vai olhar bem certinho no meu.
Ou não, ou talvez. Ou todavia. Isso se... (péssima palavra quando age como conjunção subordinativa condicional). Melhor esquecer.
Mas é que existe um quê de pureza, e é das raras e gera uma vontade de não ir embora, não mais. Nunca mais. Este momento é aquele que poderia ser eterno. Sim.
Tudo junto assim. E o tempo passa. E a vida continua. E a esperança definha. E tudo, tudo, segue um rumo, sempre, e é um rumo alheio aos desejos.
E as palavras não traduzem.

sábado, 5 de abril de 2008

Nem sempre arco-íris e borboletas

Tudo o que é diferente do que já foi catalogado choca por um tempo, e logo cai no banal, no comum, no natural, no aceitável... Enfim, show é o que atrai. E isso a mídia sabe fazer como ninguém. Há sete dias não se fala em outra coisa: Como a Isabella morreu? E nessa tentativa de informar (será?) não existem barreiras. Num dos piores depoimentos que ouvi, um repórter falou que a menina era cheia de vida, com muitos planos, objetivos... Assim como as outras milhares de crianças da idade dela. Em todas as matérias eles afirmam: “Por enquanto não há nada provado”, mas não economizam na ênfase em certas opiniões, lançam hipóteses para que o público construa a sua tese para o crime. O mistério parece aguçar o público, que se manifesta com todas as emoções à flor da pele...
É claro que um fato desses é aterrorizante, mostra o lado mais vil do ser humano, o lado que fere alguém sem defesa. Lembram daquele outro, o menino João Hélio? Também vítima de homens-monstros, que até então existiam apenas nas histórias em quadrinho. Ou a Susane? Filha matar os pais... Onde estão os limites? E essa agora, de pai matar filha?


Porém, ao refletir sobre isso, surge outra questão: Quantas Isabellas, Marianes, Aninhas, ou seja, quantas menininhas cheias de brilho nos olhos não morrem todos os dias? Vítimas de seus pais, de seus tios, de seus vizinhos, de seu país?
O Estatuto da Criança e do Adolescente traz em seu primeiro capítulo o Direito à Vida e à Saúde, “mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”. Todas as crianças possuem o direito de se tornarem adultas. Em contrapartida, os dados de uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, em 2007, revelam que uma média de 16 mil crianças morrem de fome a cada dia no mundo. Mas isso não aparece durante a semana toda na mídia. Isso incomoda àqueles que pagam uma fortuna nas escolinhas de língua estrangeira, de dança, de futebol, de qualquer-coisa-que-preencha-o-tempo de seu filho único, isso perturba àquele que desperdiça comida no almoço. Isso não é notícia para todo dia, porque é culpa de todo mundo.

Se você fosse acusado de matar uma criança por indiferença, não seria tão cruel quanto esses assassinos?

quinta-feira, 3 de abril de 2008