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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O que já não é






Imagens minhas.
Trilha: Yann Tiersen.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

noite de paz

Olho na noite e o céu vazio
todas as estrelas
dormem naquele navio

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

jardins

Definitivamente, gosto de jardins. Grandes e espaçosos, ou minúsculos; o que importa é ter florzinhas de todos os tamanhos, cores, espécies, e uma árvore estilo sábia ao meio. Brincos de princesa são as minhas prediletas, e as orquídeas também. Junta-se a tudo isso uma brisa suave para embalar as plantas para os lados de lá e de cá, numa dança que não tem hora para parar. Eu poderia ficar tempos observando um jardim desses.
O mais interessante daquele, em especial, era que sua senhora combinava com a paisagem. Usava seu vestido estampado com... flores, ao fundo estava sua casinha toda colorida e bem alicerçada. Seus cabelos branquinhos, presos da mesma maneira há anos, e um ar de leveza na vida. Num compasso ritmado ela regava as suas companheiras, num ritual quase sagrado. E toda a beleza que pode existir estava naqueles poucos metros quadrados, ali, nos fundos de uma das casinhas de um bairro qualquer.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Dona Maria

Aqui está a versão completa do breve documentário Dona Maria.
Produção/direção/tudomais: Francielli Campiolo e Scheyla Horst.

duração: 11min48seg.

novembro de 2008
.
Guarapuava/Paraná/BR.

to-das-jun-tas

Agora algumas das minhas fotografias estão todas juntas, lá no Flickr!
Clique aí e olhe lá!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ode à pitanga

tarde com gosto, cor
e singeleza
de pitanga madura


Foto minha.
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

dia de abrir a janela

e deixar o sol sair.


Foto minha.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Unattainable

Sentado no seu jardim, numa das tardes do outono que parecia outra estação qualquer.
Observava atenciosamente as folhas secas, amarelecidas, antigas, mortas e talvez por isso, belíssimas. E, mesmo sem desejar, lembrava da sua vida extra-ordinária, em flashes que vinham e desapareciam, ao ritmo do canto dos pássaros cada vez mais raros por ali. De certo modo ele era uma daquelas folhas, desprezado com a chegada de uma nova temporada. Nos fones de ouvido, uma canção melancólica incentivava as lágrimas escondidas no seu interior a saírem, todas de uma vez. E uma voz bem ao fundo repetia docemente: Cuidado, você está perdendo a si mesmo.

E ele compreendia, somente e cada vez mais, que tardes no jardim são de uma profundidade inexplicável.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

november rain

Eu muda
muito
Eu, muda


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

solidão

Parece que ele passou dias esperando eu chegar, para começar a contar os causos que estavam presos na garganta. Olhei em sua direção e disse: "Boa tarde!". Ele sorriu, espontaneamente, já sem muitos dos dentes. Sentei um pouco, para perguntar se aquele senhor sabia alguma coisa sobre a Capela do Degolado. Seu Alcindo disse algumas palavras sobre isso, e sem incentivos, começou a me falar sobre sua vida. Foram muitos relatos, nos quais ele exigia a minha concordância perguntando a todo momento: "né?". Depois de dois segundos de silêncio e olhar perdido, ele falou: "Já tá para doze anos já, que minha esposa faleceu. Desde então a minha casa é uma solidão. Eu moro ali, mas é como se eu vivesse em baixo daquela ponte, de tanta falta que ela me faz".
Tive que me despedir, já escurecia. Ele permaneceu sentado ali, a olhar as mesmas escadas que mira todos os dias. Talvez à espera de alguém, que não vai voltar.


Foto minha, numa tarde qualquer, em Guarapuava.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

doce vida amarga

Passam os dias. Inesperadamente tudo permanece sem alterações visíveis, ao som de melodias repetidas, sob um céu que sabe coisas demais para deixar de ser cinza. Cada vez é mais difícil trazer à memória momentos de ontem, ou do segundo que acabou de passar. "Viver pelo o que há de vir", eles não cansam de repetir. E aquele senhor da beira da estrada, com as mãos envelhecidas, enche os olhos de água quando começa a falar sobre como é a sua vida, e diz que vai continuar ali, só mais uns anos, ele e as suas batatas, para ver o que acontece. Uma hora algo de muito bom deve acontecer. Uma hora ou outra.


Na BR 277, próximo à entrada de Guarapuava.
Foto minha.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

na serra da esperança

Alheia aos barulhos da estrada, aos reclames dos indignados e às explicações dos uniformizados, ela desembarcou do ônibus nº5202, juntamente com seu crochê companheiro de todos os dias. Encontrou um morrinho confortável na grama, sentou, e, sem palavras, mostrou a todos que, em certas ocasiões, só vale a pena esquentar a cabeça se for com a toquinha.



Foto minha, voltando para Guarapuava, na Serra da Esperança, após o ônibus da Princesa dos Campos decidir não mais trabalhar.
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domingo, 5 de outubro de 2008

ah, não me diga!

Domingo de eleição municipal. Uma falsa sensação de escolha dos que vão ocupar um gabinete ali na Rua Brigadeiro Rocha ou ganhar uma foto emoldurada na parede da Câmara paira no ar. Parece tudo normal, gelado, cinza, corriqueiro. É que todo mundo quer poder. E os que podem quase sempre são os que arrumam uma gasolina ali, um emprego lá. Ou os que colocam pedra brita na rua que era de cascalho. Os interesses são diversos. Os sonhos são tão pequenos e ingênuos, que chegam a dar sono. Nada há de surpreendente. Está tudo muito bom do jeito que está. Está ótimo, aliás. Continua pegando a rede Globo na televisão da sala, ao menos o direito à novela das oito eles não negam a esse povo esperançoso!
E viva Diogo Pinto de Azevedo Portugal, e viva Padre Chagas! E vida Krügers, Mattos Leões, Silvestris
e Carlis dessa terra de gente intrépida, da qual cidadãos agiram como mouros e cristãos em interpretações valorosas, como se na interpretação lutar fosse mais agradável! E viva todos os nomes das ruas e seus respectivos donos! Comemoremos porque acordamos e dormimos em nossas camas quentinhas! Brademos as paródias de vitória dos carros de som numa única voz! Sejamos porta-bandeiras de números com rostos e sorrisos milimetrados! Acordemos na segunda-feira de manhã com nossas reuniões agendadas!
Nasce o sol, põe-se o sol, e tudo permanece igual.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

"fuck beauty contests"

Brasileiras participam do Miss Mundo Infantil
Segundo a notícia dessa terça-feira, duas candidatas vão representar o país no tal concurso, que será realizado em breve na Turquia. As meninas têm 9 e 12 anos. Na competição, elas vão desfilar com trajes típicos, de gala e “vestidas de boneca”. Uma adaptação do Miss “Adulto”, substituindo o “traje de banho” por uma aparição mais adequada à idade das participantes. Dizem que o regulamento do evento proíbe que as meninas usem salto alto e maquiagem (olha só... eles devem ter alguma preocupação com a sensualidade precoce... são organizadores muitooo conscientes).
A mim foi impossível ler essa notícia sem lembrar do filme Pequena Miss Sunshine (2006), dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris. Entre as várias cenas inesquecíveis do longa, a de Olive e sua dança inesperada, que constrange aos pais e mães que assistiam ao concurso, merece lembrança, pois ao fundo, revela as contradições do mundo do “parecer”. Uma crítica fundamentada numa família desajustada, que encontra num desses concursos de “homenagem à embalagem”, a oportunidade de reencontro.
Aí pensei... seria bom se uma dessas meninas que vão representar o Brasil no concurso tivessem um “avô-produtor” como o de Olive...

Foto: Divulgação

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

fumaceira

Cena do sábado...
Ela estava ali há algumas horas, no banquinho feito de um toco de árvore, com seus olhos altivos e esbranquecidos pelas cataratas, sua pele cansada de outros tantos dias que se dera a acordar. Suas ervas companheiras, sempre a curando da cegueira de não sentir. Observava de pernas cruzadas as crianças todas parecidas, com suas brincadeiras de empurrar... quantos dos seus ali, sua descendência se vendendo às músicas remixadas de cd's falsificados. Há alguns tempos decidiu não mais falar. Calou-se de uma maneira intocável, dispensou todos os sorrisos de ocasião, e não aceitou uma casa igual a todas as outras. A sua era singela, quase caída, mas guardava segredos e um orgulho de não se render.


na reserva indígena Marreca dos Índios, no sábado (27).

domingo, 14 de setembro de 2008

gostinho dos 12 anos.

Fazia mais ou menos uns 3 anos que eu não revirava aquela gaveta. De repente, o encontro. Todas as fitas estavam nas suas respectivas "caixinhas", com o nome do "que tinha dentro" escrito em adesivos desgastados, com canetinhas coloridas, numa letra de mão ainda insegura. A maioria recebeu títulos genéricos, como: Mistureba, Diversas, Monte de coisa... Enfim, não lembro qual tática eu usava para encontrar a música predileta, acho que gravava em todas as fitas, para poupar esforços maiores.
Meus olhos se encheram de brilho e não consegui conter um sorriso, pois a minha memória foi até aqueles dias em que eu ficava ansiosa ouvindo a rádio, esperando a tal música começar para apertar PLAY+REC... Lembro que a estação FM98,7 era a minha preferida e recordei do jingle... "A sua rádio é a 98, 98 e você!". (Até porque eles inserem isso no meio da introdução das canções...)
Coloquei-as no único som da casa que ainda "roda fita", algumas estavam estragadas, as vozes lentas e grossas não me permitiram reconhecer as músicas. Mas outras ainda estão perfeitas! Aí foi que eu pude lembrar: aos doze anos eu tinha o gosto musical, realmente, eclético, haha. Ah, fiz vários pout-porris sem intenção, gravava uma em cima da outra, com cortes que até pareciam planejados.
E agora eu quero saber... Quem aí nunca correu da cozinha para o quarto quando ouviu aquela música supimpa começar a tocar, na expectativa de conseguir apertar a combinação de botões a tempo, e ainda torcendo para que a fita estivesse no ponto certo?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

balão


Coisa minha. Durante a aula...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

requentando

O relógio em cima da geladeira vermelha que foi moda a algumas décadas. Tic, tic, tôoc.
Barulho irritante, qualquer um diria, mas não neste dia sem horas, repleto de orações.
"Será frio, será ausência?", pensa, calçando as chinelas de inverno e com a manta de xadrez colorido jogada nas costas, enquanto lê o jornal. TRE, PF, TCU, siglas e cifras na primeira página, e lá fora as nuvens se mostrando como jóias na vitrine, "mas não, ninguém repara nesse dom gratuito, como quisera Quintana um dia", lamenta. Nisso, toma na marra o café requentado, que lhe será o alimento até a metade do dia, ao fim do último gole morde os lábios e fecha os olhos, querendo saber por onde andariam os pensamentos daquela outra pessoa, a uma hora dessas. Tic, tic, tôoc. Aproveitando a carona com esse pensamento, suas idéias se vão no mar que é ser só.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

momenternidade

Ela parou em frente ao gigante, com certa resignação, um respeito palpável. Esperou ansiosa a onda chegar aos seus pés descalços e cansados, com o coração aos pulos. Era a primeira vez que vira o mar, em todos esses anos, meses, dias, horas... Respirou com ainda mais fé, pela beleza sem tamanho daquela criação. No entanto, puniu-se em pensamento, por sentir o inquietável desejo de arrancar suas vestes, soltar o cabelo e se entregar ao momento, quis correr de alegria, gritar de desespero, chorar de aflição. Mas permaneceu estagnada naqueles intermináveis segundos, enquanto a sua mente voava longe e o seu corpo afundava na areia. Foi então que a água gelada bateu em suas pernas, com força voraz, e a despertou do momento eterno.


Praia de Leste - PR.
Foto minha.
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

"Bom Dia!"

Na minha cabeça, idéias aleatórias, era eu tentando organizar todas as atividades do dia numa ordem coerente, já a duas quadras da universidade, andando apressada por ter dormido mais que "deveria", como sempre. E foi na praça que ele foi visto, mas tantos outros que passaram antes de mim, também apressados, nem perceberam; (pois cada um vê com o olho que tem, apenas aquilo que pode enxergar e há certas cenas que se tornam invisíveis, inacreditavelmente). Um cara estava dormindo ali, naquele banco cinza, que tem pixações quase apagadas pelos dias. Ele e tudo o que possuía: uma manta xadrez e dois sacos de ráfia resistente, cheios das coisas dele, entre as quais estava um silêncio constrangedor.

Praça em frente ao Campus Santa Cruz da Unicentro, Guarapuava - PR.
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

tudomisturado

Se o pneu furar, tenha fé!



Num dos bairros de Guarapuava-PR.
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domingo, 24 de agosto de 2008

o achado

Isso aconteceu com um amigo de um amigo meu. Seria até desrespeitoso citar identidades, idades, cores dos olhos. Entendamos essa pessoa como um de nós, com um nome e até sobrenome, Silva, Mendes, Rocha... Enfim, ao gosto de cada um, seu cada qual.
Dizem que era tarde de domingo, nuvens azuis, brisa do litoral, tudo lindo, e duramente normal, assim como hoje. Ele sentia aquela morbidez sem cura, aquela desesperança cálida. Fraqueza de começo de semana, ou apenas o início do fim... Não sabia.
Mas foi num desses momentos derradeiros que ele encontrou o porquê. O tal estava escondido no meio das velhas recordações, numa caixa do fundo do armário que ninguém mais abria; amassado entre cartas, declarações, poesias sem remetente e extratos bancários.
Depois do achado ele nunca mais foi o mesmo.
Ouvi falar que pegou aquele velho navio, e partiu.

sábado, 16 de agosto de 2008

animáveis

Dizem que ela não sabe agir com classe, só porque costuma olhar desdenhosa para todos os chatos que a observam com receio. Na verdade ela não se importa com o blá blá blá das esquinas, sobre Pequim ou tupiniquins. Há tempos entendeu que humanos quase não falam sobre o que vale a pena, na cidade e na fazenda.


Sítio São Luiz, Novo Hamburgo - RS.
Foto minha.
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hora do despejo

OoOohhh!
gritaram sem voz
no ar rarefeito
quem dera um quase não existisse
e tudo seria perfeito

domingo, 27 de julho de 2008

Num passado remoto perdi meu controle

A minha Tv tá louca, me mandou calar a boca e não sair do sofá
Xanéu nº5 - TM.

Enquanto o
Fantástico ensinava como ter etiqueta num jantar de luxo, mostrando passo-a-passo a forma de utilizar cada louça de maneira requintada para a ocasião, o Programa do Gugu dava um empurrãozinho para que mais uma família pobre construísse sua casa própria, abusando do suspense, para dar zoom nas lágrimas e tornar tudo mais emocionante. A Rede Tv mostrava várias mulheres iguais de biquíni e duas pessoas vestidas de forma vexatória segurando microfones e falando coisas sem sentido, os chamados humoristas. Na Band alguns homens falavam ao mesmo tempo, com uma ênfase assustadora... Era sobre o Campeonato Brasileiro de futebol, é claro. Cada qual defendendo o seu ponto de vista sobre a rodada da tarde. A Record colocou pela vigésima oitava vez o filme Esqueceram de Mim, talvez para que ninguém mesmo se esqueça da brilhante atuação do então menino Macaulay Culkin.
Televisão me irrita cada dia mais.
Mudar de canal num domingo à noite dá calafrios.

Desabafo de começo de semana.
21h59m35s.

incerto ou errado

A menina de pano tinha um jeito tranqüilo de levar a vida, levada, faceira. Tudo o que ela queria, naquele dia de Santo que realiza pedidos, era morar no sorriso daquele menino. O menino esquisito, que para ela era o mais bonito, o mais valente, o mais parecido com um sonho-bom-de-domingo. Mas a menina lembrou que ela era de pano, linho singelo; e ele de madeira, lenho sincero.
E as madeixas de lã entristeceram.
Má deixa para lá, afinal, quem é que acredita que menina de pano sofre desse tipo de dor?

Foto minha.
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quarta-feira, 23 de julho de 2008

sem saber que o fim já vai chegar

Lua-de-mel de casal paulista acaba em tragédia em Alagoas - 23/07/08

Eles se casaram no sábado. Todas as economias de tantos meses foram gastas em menos de 4h. Convidados bem vestidos, lembrancinhas do enlace... Tudo como deveria ser. Após a festa e intermináveis sorrisos, os agora casados queriam aproveitar os poucos dias que poderiam passar juntos e sozinhos num lugar bonito e sob uma lua doce, ao som dos pássaros que iriam embalar os momentos inesquecíveis com as suas canções de bem-querer. Sem pressa, pois esse era apenas o começo do fim dos seus dias, o começo de uma história sem fim. Era para ser, sim.
Na tarde de terça-feira foram nadar numa praia tão linda de se ver que eles pensaram ser um sonho. Água morna, vento solar. Era exatamente o lugar onde os dois queriam estar. Bom demais para ser verdade.
Mas toda beleza tem seus perigos... Há quem diga que existem coisas que acontecem porque deveriam ser, outros acreditam que é Deus que parece às vezes se esquecer.
E desde então, a cabeça da moça não para de repetir uns versos de uma música que ouviu um dia... "doce o mar, perdeu no meu cantar... E agora o amanhã, cadê?".

Texto meu, não necessariamente condizente à realidade.
Notícia disponível em Uol Notícias
Canções citadas: Conversa de Botas Batidas e Dois Barcos - Los Hermanos.

domingo, 20 de julho de 2008

"e esse tempo que não quer saber de chover"

Seu Adolfo gosta de pescar, de limonada em tarde de domingo e de conversar na janela, sem pressa. Seus olhos pretos lúgubres carregam histórias de outros tempos, tempos de mistérios, de honra e de seres prodigiosos.
Foto minha.
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quarta-feira, 16 de julho de 2008

João

João tinha um nome comum. Dava em toda esquina, mais que piolho nas cabecinhas de crianças nas periferias desse mundão. Nome de Santo, de trabalhador, de homem digno e pobre. Pobre de dinheiro, mas não de coração, isso ele pensava até então.
Mas não, no fundo ele sabia que não tinha essa dignidade que eles falavam que gente humilde recebia, porque nada parecia importante demais para ele. Entendia que nada tinha importância porque o seu pensamento não passava pelo bem-estar dos outros, geralmente só lembrava de comer e se divertir no bar com o bilhar e o baralho. Com o dinheiro que sobrava comprava uma boa mistura de domingo e um bom vinho. Amava vinhos. Entendia que não merecia viver muito, porque não quis viver para alguém, jamais se casou, vivia só. Só e sozinho. Solitário, somente. Tinha dó das crianças da vizinhança, descalças e ranhentas. Cheias de talento para o esporte, para as novelas, para as Academias, mas destinadas a um futuro que eles consideravam medíocre, rotineiro, sofrido. A base da sociedade estava ali, os que iriam construir os prédios, embalar os hamburgers, separar as verduras, e os que apertariam os parafusos dos carros do ano. Mas não, nunca morariam numa suíte, nunca comeriam fast food entre a aula de ginástica e o teatro, nunca seriam donos do automóvel 0km.
João via todas essas coisas e antes até acreditava que tudo tinha um jeito. Mas com o tempo foi perdendo a fé, como os velhos perdem os cabelos. Dia a dia, hora a hora. Notícia a notícia... Após alguns anos ele só queria mesmo era tomar seu bom vinho tinto suave da marca barata assistindo a televisão que chiava na hora do gol. Incrível, porque era exatamente no momento do gol.

dá e sobra

Só um pneu e uma corda. Mas ela imagina que seja um avião, ou uma canoa, ou asas. Depende de quando ela fecha os olhos, o que vier na mente vira história, vira verdade, vira toda a tarde.


Foto minha.
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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vidas por diamantes

É que de vez em quando, simplesmente, não dá vontade de acreditar.
E dói no peito, uma dor começo, sem fim, sem meio.

Duas notícias. Duas imagens.
O mesmo site.O mesmo mundo:

"Homem reage ao ser socorrido por integrantes da Cruz Vermelha no porto de Almeria, na Espanha, nesta quinta-feira; quinze imigrantes africanos morreram, incluindo nove crianças, por exposição ao calor enquanto tentavam atravessar da África à Europa numa balsa."
(Busca de uma vida melhor? Desespero? Enfim xenofobia).

"Carolin Wolf exibe o que pretende ser o mais caro enfeite de Natal do mundo em Lauscha, na Alemanha; bola natalina, com ouro e diamantes, custa cerca de US$ 31,4 mil."
(Natal? Enfeites? Máscaras?).

Fotos: Fernando Bonnila-Reuters e AP.
Disponíveis em Uol Notícias.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Debaixo do travesseiro

A tarde já ía ao fim naquele dia abafado. Ela sabia que o sol estava atrás do coletivo de nuvens cinzentas, porque a professora de ciências falava que mesmo não aparecendo, ele estava lá, e como o se tratava de uma estrela de quinta grandeza, ela só não entendia porque ele estava tão tímido há tantas semanas. Um dia ela desenhou um cometa e ganhou 5 estrelinhas no caderno brochura que tinha o hino nacional na contra-capa. Em baixo a mesma professora colocou um carimbo: Você terá um futuro brilhante!
E ela não imaginava que aquele desenho que não custou mais que uma hora da tarde de domingo iria influenciar em sua vida a tal ponto de iluminar os dias que viriam. Se bem que ela gostava de colecionar essas estrelinhas para mostrar o caderno ao seu pai, só para ouvir ele rindo e a abraçando com orgulho, o que não seria tão comum depois de um tempo, como ela descobriria após os anos escorrerem.
[falta escrever esse(s) parágrafo(s)... Ou não]
E hoje vê que a infância serviu numa gaveta cada vez mais esquecida, empoeirada e ruim de abrir. A ferrugem nos brinquedos, nos sorrisos, nos cantinhos das fotografias. A alma pesada, de um tanto de coisas que nunca pensou em carregar um dia. Agonia perto da garganta. Medo na noite sem Lua, e o galo que morava em cima do armário sumiu. Mal lembra dos gostos das merendas da escola, das frutas roubadas e da sensação de simplesmente não se sentir culpada.

Sem remetente, sem destinatário

Alto lá! Não aja como se eu soubesse que seria assim. Se sim não, eu não teria mergulhado tão fundo no teu perfume . Ou sim. Mas não venha dizer Adeus. Há Deus, há tempo que passa, há saudade que dói e há despedida que não quero. Há que se ser triste para entender o sentimento de bem-querer. A mim ficam as horas de ilusão e os abraços de sentir o coração. Não, não me peça para devolver. Cada pedaço que não consegui colar do pranto, da agonia. Mas há o amanhã, e dizem que ele chega com roupa nova e florida. E eu deixo com você o ontem e o que eu não terminei de escrever, as reticências nas frases que te daria de presente no próximo dia de sol. Vai, e não precisa falar o que tinha decorado.
Já sei de cor a cor do seu olho e prefiro não mais ver o seu sorriso de bossa nova.


para ouvir: Rosa desfolhada - Toquinho e Vinícius...

domingo, 6 de julho de 2008

metáforas

quem matamos para conseguir as riquezas desse mundo?

"...Era um pequeno conto meio soturno sobre um homem que encontra um cálice mágico e fica sabendo que, se chorar dentro dele, suas lágrimas vão se transformar em pérolas. Mas, embora tenha sido sempre muito pobre, ele era feliz e raramente chorava. Tratou então de encontrar meios de ficar triste para que as suas lágrimas pudessem fazer dele um homem rico. Quanto mais acumulava pérolas, mais ambicioso ficava. A história terminava com o homem sentado em uma montanha de pérolas, segurando uma faca na mão, chorando inconsolável dentro do cálice e tendo nos braços o cadáver da esposa que tanto amava.

... Sacudi Hassan, para acordá-lo, e perguntei se queria ouvir uma história.
Ele esfregou os olhos, sonolento, e se espreguiçou.
- Agora? Que horas são?
- Azar da hora! Essa é uma história especial. Fui eu mesmo que escrevi.
- Então tenho que ouvi-la - disse ele já empurrando o cobertor para se levantar.
... Quando li a última frase, ele fez com as mãos o gesto do aplauso sem som.
- Mashallah, Amir agha. Bravo! - disse ele radiante.
- Gostou? - indaguei eu, esperando sentir o sabor, e como era doce, da apreciação positiva.
- Algum dia, Inshallah, você vai ser um grande escritor, e gente do mundo todo vai ler suas histórias... Mas posso perguntar uma coisa sobre a história? - indagou envergonhado.
- Claro.
- Bem... o que eu queria perguntar é por que o homem matou a esposa. Na verdade, por que ele precisava estar triste para derramar lágrimas? Será que não podia simplesmente cheirar uma cebola?".

HOSSEINI, Khaled. O caçador de pipas; tradução Maria Helena Rouanet. RJ. Nova Fronteira: 2005. pág 39 e 40.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pavê

Ah... Melhor não ler se ainda não viu e quer ver.


O que fazem as pessoas em busca da tomada de território? Até onde vão os homens para firmar seu espaço na terra, e, conseqüentemente no mundo? A história do homem é marcada por lutas e sangue, em torno do estabelecimento. Luta por algo que possa ser chamado de “meu”.
No filme Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles, inspirado no livro homônimo do albanês Ismail Kadaré, o sertão brasileiro torna-se palco de uma disputa por terras, que ocasiona a busca pela vida. O drama não é imóvel, visto que antigamente histórias como a ilustrada eram comuns e poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. As lutas entre as famílias eram cobradas por sangue. Como numa guerra, existiam regras pré-estabelecidas, que não deviam ser desrespeitadas. Sérgio Machado, em seu livro Lutas de Famílias no Brasil, comenta sobre a organização dessas disputas. “Lutar pela família é lutar pela própria sobrevivência. Fugir disto seria infringir a regra, ir de encontro ao costume, ameaçar a própria existência e o equilíbrio social". A partir desse trecho, percebe-se que os desentendimentos tinham um caráter superior, e abrangiam a honra e conseqüente existência das famílias em seus lugares. A tradição amarrava as atitudes e a não-continuidade dessa era impossível.
No filme, a luta se dá entre duas famílias. Uma estava em decadência, não possuíam empregados e tinham um sistema de produção ultrapassado. Após o fim da escravidão, a monocultura, como a da cana-de-açúcar, entrou em queda vertiginosa. A família de Tonho estava estagnada. Enquanto isso, os rivais estavam em expansão, prósperos e bem-vestidos.

Tu nasceu vivo ou morto?
Vinte anos e uma vida não-vivida. Antonio, o filho do meio da família, era quieto e resignado, possuidor de um semblante sofrido. Por fora parecia tão seco quanto o clima onde vivia. Porém mantia no coração grande bem-querer pelo seu irmão caçula: o menino batizado de Pacu pelos circenses. Tonho não cumpriu o seu dever com gosto, como os outros. Ele não entendia a tradição, não concordava. Porém obedecera a seu pai. Após o ato feito, o rapaz percebeu que seus dias estavam contados, a faixa preta em seu braço era a prova disso. Pouco tempo teria para viver, e isso, aliás, nunca tinha acontecido com ele.
Tonho, então, sentiu que precisava viver antes de morrer. Nessa descoberta, Pacu teve um papel importante. O menino falava incorretamente, não sabia ler, mas tinha a mente colorida. Por ter a sabedoria de uma criança, não entendia o porquê das mortes, não queria perder seu irmão por um motivo tolo. Mesmo sendo o mais jovem da história, Pacu percebera que tanto os bois rodavam em torno da moenda da cana-de-açúcar sem nunca sair do lugar, quanto a família estava presa a um ciclo da tradição que não os levara a nada. Muitas vezes Pacu incentivou o irmão a fugir. Nesse momento nota-se que a honra da família era mais importante que a vida de um de seus integrantes, pois Tonho voltou.
A arte aparece no filme como um elemento libertador. Dois artistas circenses que rodavam a região fizeram com que os moços tivessem uma nova perspectiva de vida, sem tanta dureza quanto antes. Percebe-se que os artistas tinham um vocabulário correto e a cabeça aberta, contra a tradição das lutas entre as famílias. Clara, a morena que voava e cuspia fogo, iluminou o coração de Tonho, fazendo com que ele conhecesse o amor libertador. Ela também deu a Pacu um livro, que fez com que o menino sonhasse, criasse e sentisse emoções. Ao ver as imagens, ele pensava em histórias distintas, pois não sabia ler. O pai, figura rígida, tirara do menino o livro, pois vira que este ria sem parar, e para o pai, rir não era permitido. Todos deveriam estar sempre em luto, pelos que se foram e por aqueles que ainda morreriam. O pai falava alto, para mostrar autoridade e tinha um discurso permeado por ódio e vingança.
Pacu dizia que queria ser um peixe. “No mar todo mundo é feliz”, idealizava. E ao morrer no lugar de Tonho, o menino quebrou o ciclo que tanto repudiara. O véu caiu quando a mãe e o pai perceberam que não tinham mais nada, nem terra, nem família, apenas um vazio seco nascera há décadas e estava profundo. O irmão, que deveria ter morrido, foi então a encontro do mar. E o mar que povoou os pensamentos anunciou que março poderia ser diferente...
Site oficial: http://www.abrildespedacado.com.br/

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Apagaram tudo, pintaram tudo de bege.


O fim do Fala! Na Parede.
Nascimento: 26 de maio.
Morte: 30 de junho.
Vivia atrás do quiosque.

terça-feira, 1 de julho de 2008

três kombis e um curral

Giving hope to children in Brazil.
Canaan Land Ministries

e o número de uma conta, um endereço, um telefone.
Era essa a inscrição no cartãozinho que a mulher de moletom peludinho, que falava com um sotaque misturado e tinha um olho cheio de uma fé em desuso nos dias de hoje nos entregou.
Ela e sua equipe cuidam dos machucados dos joelhos e dos corações daquelas crianças, e querem que tudo seja como numa família. Chama-se Viktoria Fulop, ou simplesmente Vitória, nasceu na Hungria e é vice-presidente do Instituto Canaã, que fica em Entre Rios. "É bom quando eles saem daqui e lembram da gente, alguns ligam quando casam e outros trazem os filhos para conhecer a fazenda e dizem com orgulho: foi aqui que eu cresci", conta.
Mariane, Luana, Paulo, Luquinha, Ewerton. Todos juntos, numa coisa só.
Vai saber quantas feridas estão ali, atrás dos sorrisos e dos abraços sem fim que eles nos dão?
E é tão bonito ver pessoas como os apoiadores dessa ONG, que se dedicam um tanto, para dar esperança às crianças do Brasil, as que não têm o colinho da mãe (embora nem sempre com os melhores métodos, mas ao menos com atitudes).
O irônico ( ou ridículo?) é que enquanto alguns vêm de longe para atos desse gênero, outros tantos jovens brasileiros não lembram que são latino-americanos, filhos de uma nação desigual e se vão em intercâmbios (não)culturais, para passear e se encher de coisas inúteis, ou ainda para trabalhar em demasia em busca de mais dinheiro para mais aquisições que vão entupi-los de coisas que não precisam. Sem desejos maiores que curtir, sem preocupações maiores que consumir. Não posso afirmar o sentido da vida, mas há de ser mais do que acumular. É preciso dividir, fazer sorrir. Sim, há de ser.
Tem que ser.



ps: O Instituto Canaã é uma espécie de Casa Lar, que cuida de crianças órfãs ou afastadas dos familiares. Existe há mais de trinta anos e aceita voluntários.
Texto e foto: Scheyla Horst.
Visita em 01 de julho de 2008.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Palê

- Cê tá é doido? Eu é que não subo num trem desses, tá bão aqui memo. Com minhas perna eu corro, freio. Lá eu tô nas mão do home da cabine. Cê tá é achando que eu avôo? Só no pensamento, seu moço.
Num insista que eu vou não, viu bichinho. Perfiro demorá mais tempo no ônbus. Dá pá i pensando na morte da bezerra, se bem que 'os burrinho pensativo que a gente vê na estrada dispensá nóis di pensá¹'. Avião parece é pássaro que não sabe batê as asa, e pássaro não tem quem dome, só Deus nosso sinhô. E se Ele arresorvê soprá mais forte que de costume e leva nóis pro meio do marzão? E se a garsolina acaba? Ixi, nem bem principio a pensá e já me arripio tudo.
...
Só vô se for amarrado. E tem que tapá minha boca cum durécão, sinão eu grito a viage intera, de modo que parssageiro argum vai drumi aquietado.
É que certas coisa a gente não percisa fazê nessa vida, seu moço.
E eu tô bão desse jeitinho aqui: Dois pé bem fincado no chão, só a cabeça nas nuvem.


Texto meu.
¹saudoso Quintana dos quintanares.
e no meio das palavras outros pensamentos alheios.

dança do tempo

Ana esperava com paciência ver o beija-flor dançar perto da janela, em todas as manhãs de primavera.
Foto minha.
Esta foto não é pública. Todos os direitos reservados.

domingo, 22 de junho de 2008

pirilampeando

um escuro de doer. uma dor no finzinho do último fino fio de cabelo. não importa o que era, agora é só para além, além do mais, não há tempo a perder. temporal de idéias, ideais esquecidos no fundo do baú de trás da cama antiga. empoeirados, todos eles juntos e juntamente sozinhos. escondendo pedaços de dias bons, papéis de bombons, pétalas de rosas não mais vermelhas. ver melhor agora, sem óculos, sem embaços. deixa para lá, estou sem pressa, (vem depressa?).
um fim de jogo, afinal não afinado é bom também. tão bem, tão essencial pensar pensamentos aleatórios. desses que vêm não sei da onde, e brincam de esconde-esconde. sem querer querendo mais, te sonhei comigo, e eras novamente meu amigo.
nunca lembro que tenho umbigo, bigode de suco de uva, sonhos de valsa na gaveta mais alta. chuto na trave e o travesseiro enxuga as lágrimas.
pedalo sem força, brinco de forca, apago no sofá da sala. salada de frutas. madura às vezes, quase sempre preguiçosa. lembro e esqueço, finjo que não lembro, então encontro uma árvore cheia de jabuticabas, elas me olham bem fundo com seus olhos cor-de-jabuticaba e suspiram: "borboleta parece flor que o vento tirou para dançar, e sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar!".

"histórias, prosas, rimas sem começo e fim...
somos vaga-lumes a voar perdidos".


Texto meu
Citações: Vaga-Lumes e Sonho - O Teatro Mágico.

Multinacionais

Dalvani é da Geografia, do skate, do bem. Numa de suas aulas, pensou algo, e foi forte."O mundo precisa saber disso", sentiu. Então aqui está.
Para que saibam que existe quem sabe de coisas que eles não querem que seja sabido.

Multinacionais
"Você não está na sua casa.
Você não está nessa cidade. Muito menos nesse país.
Está no mundo. O todo também é você.
Cuidado!
Querem te dominar... tudo é pouco. O todo não basta. Estão em toda parte.
Falando ao seu ouvido... Eles mandam o que vestir, o que comer, o que pensar.
Cuidado!
Estão em todos os lugares.

Estão no que come,
bebe,
veste,
vê,
,
até mesmo no que você deseja.
Nossos pensamentos não são nossos."

vinte de junho de dois mil e oito

Texto: Dalvani Fernandes.

A primeira pauta de telejornalismo

só reproduzindo o sistema.


Produção: Scheyla Horst.
Reportagem: Francielli Campiolo.
Edição: José Adolfo Vaz.


RETRANCA: EDUCAÇÃO/GUARAPUAVA/ESCOLA TOTAL

DATA: 17 de maio de 2008.

SUGESTÃO DE CABEÇA:
GUARAPUAVA ESTÁ IMPLANTANDO UM PROJETO PIONEIRO DE ESCOLA, QUE SERÁ MODELO PARA OUTROS MUNICÍPIOS DO PARANA E DO BRASIL.
É A ESCOLA TOTAL.

MAS A FALTA DE INFORMAÇÃO DEIXA A POPULAÇÃO CRIANDO EXPECTATIVAS SOBRE COMO VAI SER A ESCOLA.

A PRIMEIRA ESCOLA DO PROJETO ESTA SENDO CONSTRUÍDA NO BAIRRO INDUSTRIAL, ONDE RESIDEM FAMÍLIAS DE BAIXA RENDA. A MORADORA SILMARA TEM QUATRO FILHOS EM IDADE ESCOLAR E PRETENDE COLOCA-LOS NA ESCOLA TOTAL.

SONORA SILMARA APARECIDA SANTOS, DONA DE CASA,
“Pois daí vamos ver os cursos que vão ter, daí eu pretendo fazer algum também, colocar as crianças, se tiver né, que é muito bom também. Tudo pertinho e até agora não tem e vai ser muito bom."

ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL TERÃO, ALÉM DO ENSINO INTEGRAL, AULAS DE MÚSICA, DANÇA, TEATRO, ATIVIDADES RECREATIVAS E ESPORTIVAS. JÁ PARA JOVENS E ADULTOS, A ESCOLA VAI OFERECER O ENSINO PROFISSIONALIZANTE.

SONORA JANE NEGRELLE, DONA DE CASA
Eu tô sabendo que vai ser uma escola do prézinho até os adultos, vai ter balé, judô..."

PASSAGEM) TODAS AS PAREDES JAH FORAM ERGUIDAS. PARA A ESCOLA FICAR PRONTA SOH FALTA O TELHADO E O PISO. A PREVISAO EH QUE ATEH AGOSTO A OBRA SEJA INAUGURADA, E QUE, NO INÍCIO DO ANO QUE VEM QUINHENTOS ALUNOS OCUPEM AS SALAS DE AULA.

SONORA DINO ARAUJO, ENCARREGADO DE OBRAS
"Empregos diretos nós temos cinquenta e seis funcionários, a obra começou dia quinze de janeiro e o contrato é de oito meses, mas a intenção é terminar em seis meses".

ESTÃO SENDO INVESTIDOS APROXIMADAMENTE TRES MILHOES DE REAIS NA CONSTRUÇAO DA ESCOLA TOTAL. A ARQUITETURA FOGE DA PLANTA DE UMA ESCOLA BASICA. SERÃO SEIS BLOCOS QUE TERAO: AUDITÓRIO, BIBLIOTECA, SALA AUDIOVISUAL, QUADRA POLIESPORTIVA ALÉM DE LABORATÓRIOS E UM GRANDE REFEITÓRIO ONDE SERAO REALIZADAS OFICINAS DE CULINARIA.

SONORA LUIZ ANTONIO VINCENTIN, PRESIDENTE ASSOCIAÇAO DO BAIRRO
“ Tava na hora de vir essa escola pra nós, só que realmente a gente ainda não sabe direito como ela vai funcionar, se é o dia inteiro com os alunos"

SONORA ABIMAEL PEREIRA DE PAULA, 14 ANOS – “ Vai ter muitos cursos, de noite eles vão abrir a quadra pra nós poder jogar bola"

SONORA DANIEL DE LIMA, 12 ANOS – “Lá vai ter aula de música e muitas coisas"

SONORA JOÃO HENRIQUE PEELICH PLAVAQ, 10 ANOS – “ Brincadeira, comida boa, chutar bola, basquete, muito bom!"

NOTA PÉ:
COMO VIMOS NA MATÉRIA, A POPULAÇÃO AINDA NÃO SABE COMO VAI FUNCIONAR A ESCOLA. A EQUIPE DO TERCEIRO PLANALTO PROCUROU A SECRETARIA DE EDUCAÇÃO MUNICIPAL E NÃO OBTEVE RESPOSTA.

terça-feira, 17 de junho de 2008

ditado popular [1]

E a senhora de uniforme vermelho que se ocupava dos vidros nesta tarde de vento cortante estava certa. Simplesmente certa.
Enquanto esfregava com movimentos circulares o paninho, comentava:
"Quando se limpa bem por fora é que se vê a sujeira que está por dentro".

sábado, 31 de maio de 2008

surpresas e suspiros

Trechos entrevistas Paulo Leminski (1944 - 1989)

"Ser poeta aos dezessete anos é fácil, quero ver alguém continuar acreditando em poesia aos 22 anos, aos 25 anos, aos 28 anos, aos 35 anos, aos 40 anos, aos 45 anos, aos 50 anos... encontrar um poeta como Drummond ou como o admirável Mário Quintana.

Um dia desses quero ser
um grande poeta inglês do século passado
dizer ó céu, ó mar,
ó clã, ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino

Eu acho que a poesia é um inutensílio, a única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa, porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que você querer, por exemplo, que um gol do Zico tenha um porquê além da alegria da multidão. É a mesma coisa que querer, por exemplo, que a alegria da amizade, do afeto, tenha um porquê. A poesia não precisa ter um porquê. Pra quê porquê?

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois

de mim de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


... É através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam que a sociedade respira.
Eu tenho uma teoria de que precisa existir poesia tanto no emissor quanto no receptor. Você tem que ser tão poeta para entender um poema quanto para faze-lo. Porque só poetas são capazes de entender poesia.



Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo
duas três
quatro
cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

A poesia é uma espécie de um heroísmo. Você continuar acreditando, ao longo dos anos, nessa coisa inútil que é a pura beleza da linguagem, que é a poesia, é um heroísmo, é quase uma modalidade de santidade."

gardênias e hortênsias
não façam nada
que me lembre que a este mundo
eu pertença
deixem-me pensar
que tudo não passa de uma terrível
coincidência

sábado, 24 de maio de 2008

Mais delas, elas estão em todo lugar!

João escolheu um sorvete, porque fazia dois meses que não via o dolézero, e sentia uma saudade que doía mais depois que ele chutava bola com os amigos.
.

Robert pescou quatro peixes na poça da rua de baixo, e um tubarão!


Josiel foi picado por uma aranha quando tinha 4 anos. Ficou roxo e doído por doze dias!
Mas agora ele pula mais alto que todas as outras crianças da escola.



Fotos minhas.
Estas fotos não são públicas. Todos os direitos reservados.

domingo, 11 de maio de 2008

O sufoco

"Tira isso daí para eu sentar, porque mala não tem bunda", exalta-se a senhora de uns setenta e tantos anos com um menino loiro queimado do Sol que sentara junto com suas bagagens, ao mesmo tempo em que mostra a identidade para o cobrador com afinco, a fim de comprovar que não deveria pagar a passagem. Com essa cena corriqueira, começou a viagem. Onze reais e quarenta e cinco centavos. "Quer pagar esse preço e ainda deseja mordomia?" Quatro horas e quinze minutos para percorrer cento e setenta e alguns quilômetros. Sol tímido e vento cortante. Ao mesmo tempo, um ar abafado. Malas, pés, joelhos, crianças, sacolas, suor. Tudo junto, sensação de que não cabe mais ninguém. Parada solicitada, dois descem, quatro sobem. Tá, me enganei, cabia mais alguém. Silêncio. Parada solicitada. Um desce, dois sobem. Novamente estava errada, sempre cabe mais um, sempre. "A senhora vai até Imbituva? Não, até um trecho da estrada perto de Guamiranga". Do outro lado: "Que horror, como está cheio. Quase nunca é tão cheio assim". O ônibus pára no acostamento, mais cinco entram. Ninguém desce. Aperta mais um pouquinho que dá. Sempre dá.
Meu pequeno quadrado de trinta centímetros² fora reduzido durante os primeiros vinte minutos de viagem. E agora eu ocupava um retângulo estreito, sem saída. O homem do lado esquerdo, que tinha uma calça jeans dos anos 80, quis fazer graça, "já pensou se alguém vomita no ônibus?" - mal de brasileiro, sempre faz piada, debocha de sua própria situação, seria por um humor refinado, ou porque quer deixar a vida mais fácil? - Enfim, de qualquer forma, ninguém riu.
Eu não consegui contar quantos passageiros estavam ali, mas olha, definitivamente era muito mais do que o máximo permitido. Do que o máximo aceitável. Entre eles, Telma Roesler permanecia inquieta. Embora estivesse sentada, e num lugar privilegiado (ao lado da janela), a mulher do Mato Grosso do Sul não conseguia esconder a insatisfação com o meio de transporte "escolhido na marra", visto que não tinha uma linha 'convencional' para Imbituva no período da manhã. "Teria só às 17h10min, e eu não posso ficar até esse horário sentada na rodoviária esperando. Eu acho que isso é uma falta de respeito com o usuário", indigna-se. "Ah, e eles não queriam me deixar entrar com as malas! De certo eu viria do MS sem nada!", ironiza. Ela continuou contando que não recebeu as informações necessárias sobre como seria a viagem, e até se assustou quando lhe disseram que a passagem custaria apenas R$4. "Estou vendo isso aqui regredir, e isso me deixa muito triste, estou estarrecida", conclui, já com a mão direita na cabeça, e os cabelos esvoaçados.
Mas tantos outros ali não reclamam. Até acreditam que merecem sofrer um pouco mais. Com os corpos envelhecidos e o espírito acomodado e esperançoso, eles apenas desejam que o ônibus chegue logo lá do lado de lá.
E a menininha dos olhos verdes sorria como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira que ela ainda não conhecia.


Textos e fotos: Scheyla Horst.
Viagem: 10 de maio de 2008.
Saída: 9h45min - Metropolitano Princesa dos Campos.
Linha: PG - Imbituva - Guamiranga - Prudentópolis - Guarapuava.

domingo, 4 de maio de 2008

Eu tenho medo de termômetro

Todo aquele mundo que existia no meu quintal... Brincando que a rede verde, na garagem, era meu barco, e a vassoura, o remo. Se fechasse os olhos, já sentia as ondas, o gostinho salgado do mar e via as estrelas de tão perto, mas tão perto, que se quisesse, poderia guarda-las numa sacola.
E a brisa das tardes de verão são inesquecíveis, ficavam mais refrescantes quando eu descia a rua de pedras soltas com a bicicleta de dezoito marchas do meu irmão. Se brecasse com o freio traseiro, fazia uma derrapagem barulhenta. Emocionante. Quem conseguisse a maior vencia.
Frio na barriga. Incerta era a corrida até o muro, e se estivessem guardando caixão? Se bem que eu sempre era café com leite.
Na grama onde eu andava descalça, de alma limpa, coração aberto; sempre fazia o velório das minhocas que morriam de insolação, e as cruzes de palito de dente demarcavam as covas. Estranho?
Às vezes, descuidada, ainda escuto as gargalhadas aconchegantes da vizinha, que tinha um buda em cima da geladeira e me enchia de balas de amendoim.
Ou quando ficava sem respirar atrás do poste perto do bar do Zezinho, e trinta e um meu.
No matagal da frente de casa, onde caçava os vagalumes com potes de conserva, tinha uma árvore que dançava quando ventava, a maior de todas elas, sempre pensei que ela queria sair correndo dali. 

sexta-feira, 2 de maio de 2008

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Ir para casa

Descrição de vinte e um minutos e quarenta e oito segundos do meu dia trinta de abril de dois mil e oito;

Como é costume, acabei perdendo o ônibus das dezessete e vinte e sete, que vai direto ao terminal, e o vento cortante que anuncia a chegada do inverno acabou com a minha coragem de ir para casa a pé, então esperei o próximo. Às seis horas e nove minutos ele chegou, lotado, o que é comum neste horário. Lá dentro a conversa não era alta, os olhares estavam cansados. (Todo mundo quer ir para casa, todo mundo precisa ir para casa). E é bom lembrar ainda existem os senhores mais velhos, com suas boinas e casacos de veludos, que mantêm a cordialidade e fazem novas amizades a cada passeio, despedindo-se de todos ao descer. No ponto mais escuro, entrou a mulher dos cabelos intermináveis, que só usa saias. Suponho que ela estivesse com frio.
Lá pelo meio do caminho, só se ouvia os suspiros. Os mais jovens balançando a cabeça ao ritmo das músicas dos mp4, mp5...
Ao meu lado, a mulher dos olhos negros permanecia num silêncio de palavras e gestos, segurando com zelo as suas sacolas. O seu piscar de olhos estava cada vez mais demorado. Em algumas vezes nossos ombros se encostaram, meio sem querer.
E eu queria saber o que todas aquelas cabeças de corpos exaustos estavam pensando. Seria na janta? No feriado de amanhã? No porquê da existência?
Logo os vinte e um minutos e quarenta e oito segundos passaram, e caíram no esquecimento (?).

É, todo mundo vai para casa.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O segundo que antecede o vôo.

"Escolhi o dia 20 de abril porque é justamente na lua cheia. Uma alegria você poder contemplar aquele luar espetacular", conta o padre Adelir de Carli. (em 03/03/08).

Ele se preparou para bater seu record. Desta vez seriam 20h voando, sem interrupções. O diferencial estaria no meio de transporte: balões de festa gigantes!
Desde pequeno tinha esse sonho. Quando via nos desenhos aquelas pessoas subirem aos céus apenas com os balões coloridos cheios, sentia que era isso o que lhe daria alegria, sim, era isso o que ele faria de diferente no mundo. E assim fez.
Mesmo com o tempo não favorável, partiu na manhã do dia 20 de Paranaguá, após a missa. Em outras vezes tudo tinha dado certo e ele precisava sair neste dia, para ver a Lua.
Mas os ventos o levaram para longe da rota, fazendo com ele chegasse perto do mar. Não. Isso não estava nos planos.
E as manchetes de hoje anunciam: "Padre Adelir está desaparecido".

Mas há quem pense que ele enfim se encontrou, lá, bem longe, pertinho da Lua.

Texto não necessariamente condizente à realidade.
Outras fontes:
http://www.tvcanal13.com.br

domingo, 20 de abril de 2008

Virado. Não ovo. Apenas do lado avesso, estranho, castanho. Escuro, isso sim.
Olho de brilho, de uma paz instantânea, e é certeza que um dia vai olhar bem certinho no meu.
Ou não, ou talvez. Ou todavia. Isso se... (péssima palavra quando age como conjunção subordinativa condicional). Melhor esquecer.
Mas é que existe um quê de pureza, e é das raras e gera uma vontade de não ir embora, não mais. Nunca mais. Este momento é aquele que poderia ser eterno. Sim.
Tudo junto assim. E o tempo passa. E a vida continua. E a esperança definha. E tudo, tudo, segue um rumo, sempre, e é um rumo alheio aos desejos.
E as palavras não traduzem.

sábado, 5 de abril de 2008

Nem sempre arco-íris e borboletas

Tudo o que é diferente do que já foi catalogado choca por um tempo, e logo cai no banal, no comum, no natural, no aceitável... Enfim, show é o que atrai. E isso a mídia sabe fazer como ninguém. Há sete dias não se fala em outra coisa: Como a Isabella morreu? E nessa tentativa de informar (será?) não existem barreiras. Num dos piores depoimentos que ouvi, um repórter falou que a menina era cheia de vida, com muitos planos, objetivos... Assim como as outras milhares de crianças da idade dela. Em todas as matérias eles afirmam: “Por enquanto não há nada provado”, mas não economizam na ênfase em certas opiniões, lançam hipóteses para que o público construa a sua tese para o crime. O mistério parece aguçar o público, que se manifesta com todas as emoções à flor da pele...
É claro que um fato desses é aterrorizante, mostra o lado mais vil do ser humano, o lado que fere alguém sem defesa. Lembram daquele outro, o menino João Hélio? Também vítima de homens-monstros, que até então existiam apenas nas histórias em quadrinho. Ou a Susane? Filha matar os pais... Onde estão os limites? E essa agora, de pai matar filha?


Porém, ao refletir sobre isso, surge outra questão: Quantas Isabellas, Marianes, Aninhas, ou seja, quantas menininhas cheias de brilho nos olhos não morrem todos os dias? Vítimas de seus pais, de seus tios, de seus vizinhos, de seu país?
O Estatuto da Criança e do Adolescente traz em seu primeiro capítulo o Direito à Vida e à Saúde, “mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”. Todas as crianças possuem o direito de se tornarem adultas. Em contrapartida, os dados de uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, em 2007, revelam que uma média de 16 mil crianças morrem de fome a cada dia no mundo. Mas isso não aparece durante a semana toda na mídia. Isso incomoda àqueles que pagam uma fortuna nas escolinhas de língua estrangeira, de dança, de futebol, de qualquer-coisa-que-preencha-o-tempo de seu filho único, isso perturba àquele que desperdiça comida no almoço. Isso não é notícia para todo dia, porque é culpa de todo mundo.

Se você fosse acusado de matar uma criança por indiferença, não seria tão cruel quanto esses assassinos?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

segunda-feira, 31 de março de 2008

Título algum

,sonhava. E sabia que isto lhe custaria algo, não era possível querer sonhar sem pagar por isso. Eles sempre falavam que tudo, tudo, tudo tinha um preço - em certos momentos era alto demais. Mas mesmo assim, sonhava. No fundo queria provar que era possível, era, era... seria. Por um dia, ou dois - quem sabe uma semana - esperava não saber sobre o que a lei previa, sobre o que a TV dizia, sobre o que os outros já tentaram sem obter êxito. Simplesmente precisava de uma nova chance, chance de não entender e mesmo assim transcender. Chance, oportunidade, expectativa, esperança, e mais;

Olhando pela janela, todos pareceram como uma colcha de retalhos, de uma só cor. Nada destoava, nem o fio utilizado na costura. Seria angústia aquele aperto perto da garganta?
Tomou ar.
Sentiu. Mais uma vez e sempre. Insistiu.
Por quê?

Boa pergunta.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos

Um texto da minha pequena-grande amiga, Fran.

"E o universo glamouroso gera também dolorosas perdas. O rosto e o corpo estampado nas passarelas, nos outdoors, nas revistas e mais revistas tem um preço além daquele representado pelas muitas notinhas verdes que se recebe após cada click.
O culto pela ausência das formas femininas. É isso o que é cobrado pelo mercado da moda. O que vai totalmente contra a natureza das curvas delineadas das mulheres daqui.
Uma dúvida: Por que não se vê por aí modelos masculinos anoréxicos ou bulêmicos?
Não, meu bem. Isso não cabe aos homens. Fomos nós as herdeiras do sofrimento.
O rapaz e a moça, altos. Ele, forte. Ela, esquelética para todo o sempre. Se preciso for que retire as flutuantes costelas, que falta farão?

Uma dieta de tomate e maçã. Não esquecer de ligar o chuveiro para vomitar. Sempre procurar uma gordurinha. Aqui estão os passos a serem seguidos e que venha a próxima da fila, por favor.
As roupas também caem bem em pessoas de massa corporal na média. É verdade!
Se for pra dar fim à vida quando se está no auge dela, que a benção de não ter esse glamour caia sobre nós, para passarmos dos 21.
Sejamos médicas, engenheiras, vendedora temporária no camelô clandestino do Bego. E que tenhamos sempre aquela barriguinha ou aquele culotezinho.

No diminutivo, convenhamos."



Francielli Campiolo, 20 anos, a menina dos olhos verdes, é acadêmica de Jornalismo e escritora amadora passando por um momento de crise.

segunda-feira, 17 de março de 2008

o Dar de Ombros

Não é raro, não, não é difícil enfrentar situações para as quais damos de ombro. Fingimos que não nos importam. Andamos com um ar superior, como donos da situação, vencedores, imunes a tudo e todos. "Eu não queria mesmo". "E você acha que eu estou preocupado?". Às vezes deixamos para segundo plano assuntos de grande importância, quando não nos importamos com o desleixo dos professores na universidade, ou dos governadores na administração pública (que agem como autoridade e não como servidores, que é o que são), ou até mesmo dos nossos familiares. Enfim, se somos indiferentes não agimos como seres independentes, mas como submissos. Adequar-se aos "isso-não-me-importa", acaba por se tornar a exaltação da ditadura. Afirmamos que além de se estar de acordo com tudo, ("isso sempre vai ser assim"), não há visibilidade de conhecer o que é autêntico. Atrás da desculpa de impossibilidade, acabamos entrando no barco daqueles que vão navegar eternamente no mar do imobilismo.

Ou não.

sexta-feira, 14 de março de 2008

nadademais

Pode ser do mar vir contra o cais, mas não, não hoje. Só por hoje ela amou mais uma vez, sentiu o ar, o céu e o som e a paz. "Viver sonhando, quem me dera".

sábado, 8 de março de 2008

Paulatinamente

Cabeças dispostas em ouvir e aceitar. Batam palmas, levantem o pé direito, sorriam para todos, com o coração puro e bom. Vocês serão os melhores. Os mais brilhantes entre tantas coisas velhas e desgastadas. Eles estão todos perdidos. Não, não vai ser fácil. Sim, é moleza. Ah, não dá nada. Isso é inaceitável. Ele olha o coração. Com essa roupa você não consegue o emprego. Isso vai te matar. Aquilo também. Você precisa se cuidar. Não faça isso. Pague no protocolo. Leve no banco. Não cumprimente desconhecidos. Não aos desconhecidos. Sem juros, sem entradas. Tudo o que você sempre quis a um palmo de distância, no entanto você não vê. Óculos para enxergar, mas não, não se vende. Vendar. Vender. Vencer. Envelhecer.
Cansei.

Ser mulher

Para sofrer, sofrer até o fim. Para se esconder, chorar, e mesmo assim, crer. Para parir. Para lavar, limpar, cozer. Para ser bonita, elegante, companheira, prendada. Para amar. Amar e esperar. Para ter um dia internacional. Para ouvir direitos. Para lutar. Para se submeter e respeitar.
Para ganhar menos. Para cansar mais. Para doer e sangrar. Para ser símbolo.
Para rebolar. Para emagrecer.
Para sofrer, sofrer até o fim.

Ou não...

Mulheres na Faixa de Gaza.

Foto: Hatem Moussa - AP.

sábado, 1 de março de 2008

Tentativa de comunicação

Segundo o esquema de comunicação enunciado por Laswell (1948), todo o processo comunicativo é permeado por algumas questões: quem, diz o que, para quem, por que meio, e com quais efeitos? Sendo que apenas se efetiva o processo comunicativo quando há o feedback, ou seja, um retorno por parte do receptor. Tão perfeita explicação, não? Pois que seja.
O fato é que há algum tempo existe alguém querendo se comunicar conosco. Mas não sei se o problema está no 'receptor não-sensível' a observar essa tentativa de contato, ou em outro fator, porque os meios são realmente notáveis. Exemplificando talvez fique mais claro: Hoje, 01 de março, em Viena, na Áustria, uma tempestade, que foi carinhosamente chamada de Emma, causou estragos no breve espaço de tempo em que esteve por lá.
Ainda querendo atenção, a carente menina foi até Weisswasser, na Alemanha. Mas todos estavam tão cheios de si, que sequer conseguiram ouvir o recado. Era necessário correr para se esconder, sem saber que não há como fugir por muito tempo.
Há tempos 'os céus choram tempestades', porém não há quem ouça os seus lamentos. Talvez seja chegada a hora de entender...


Imagem: AFP - Disponível em UOL notícias.
Texto meu.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Abraço :)

Uma senhora solitária encontrou um leão ainda bebê, na Colômbia. Um achado nada comum, digamos... Ele estava mal alimentado, doente, também sozinho no mundo.
A mulher não conseguiu simplesmente deixá-lo ao relento, à espera da morte e por isso levou-o para sua casa. Todos os vizinhos e parentes consideraram um impulso inconseqüente, mas o fato é que a cada dia os laços cresciam, e nunca se viu tanto brilho nos olhos daquela senhora.
...Cuidou dele, como se venera um filho, compartilhou do amor que estava sobrando em seu peito. Porém, ela esquecera que o tempo faria o pequeno indefeso tornar-se tão feroz a ponto de ser considerado o Rei da selva. Numa tarde seca de inverno, obrigaram-na a entregar o amigo felino ao zoológico. Ambos sabiam que aquela era uma relação impossível e o melhor seria esquecer, mas a saudade apertou no fim do primeiro mês.

E parece que ele será eternamente grato...



Nome da mulher: Ana Júlia Torres.
Texto meu, baseado na notícia, não 'necessariamente' correspondente à realidade.