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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Fez-se Sol

Andando pela Guarapuava que restou após tanto céu desabar e dias virarem cinzas e úmidos, eu vi umas cenas que não deviam deixar de dançar. Vi e sorri. Vi e não vi. Vi feito quem pensa em outras coisas que estão nos pensamentos que voltam a brilhar após o encontro com a luz solar, e o silêncio foi quase azul. Assim, lembrei de umas palavras de Quintana:
"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo...
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam logo ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando."


terça-feira, 21 de julho de 2009

o que foi mesmo não sendo

Parou subitamente para olhar, então, não aquilo que poderia ter sido, mas o que foi e, por isso, é. Constatou, sem euforia e com uma sonolência típica, que o hoje foi feito de tantos caminhos idos e vindos (com o all star branco ou não) no decorrer dos anos apressados e que tudo poderia ser diferente, não fossem as ruas, os rostos, os singelos sonhos que atravancaram feito pedra o caminho da menina tão igual às outras. Mas as mesmas palavras que cintilavam anos atrás continuam fascinando. E como quem, só por teimosia, não se rende ao não, ela insiste em acreditar, já sem arrependimento de passados, sem gostos amargos na boca. Chega até a sentir paz. E ela pode seguir pelo caminho que desde sempre foi levada a trilhar, agora vai para um lugar incerto, talvez, o certo é que será. Ah, e o tempo, aquele amistoso companheiro, é apenas o tempo, e tudo o que ele traz.


Foto e texto meus.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

palavrinhas

A vaca masca inóspito pasto
um misto ingrato
de saudade e de mato
***
o sol se põe
põe-se o sol
por si e só

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ninguém notou.

Era perto do meio dia e brilhava o sol, alto; muitas pessoas apressadas, todas agindo conforme o script de um dia normal. Eu estava andando cabisbaixa, pensando em várias coisas, aqui e acolá, nem lembro o que eram, se é que eram. Quando olhei para o lado, vi uma mulher segurando um menino, ela pediu dinheiro para comprar comida, eu balancei negativamente a cabeça, como uma resposta automática e segui. Porém, alguns passos adiante, parei. Começou a incomodar a minha atitude, feito um aperto que maltrata, ora, por que tratar as pessoas como se fossem formigas? Talvez se, ao invés de uma mãe e um filho, estivessem naquela calçada uma cadela com a sua cria, muitas pessoas parariam e exclamariam: "Oh, que dó, tão bonitinhos e abandonados no mundo!", quiçá até os levariam para casa. Mas não eram cachorros, eram humanos e, por isso, não receberam a atenção dos seus "semelhantes". Fiquei com ânsia por ter feito o que fiz: o que todo mundo sempre faz. Voltei e me sentei ao lado da mulher de cabelos escuros e olhos azuis. Ao me ver, ela abaixou a cabeça. Perguntei onde moravam, "no Xarquinho". Conversamos algum tempo, expliquei para ela que existem alguns locais onde é possível conseguir ajuda, até porque um dos direitos sociais, "previstos na constituição" é o de assistência aos desamparados. Ela me olhou curiosa e humildemente respondeu: "É que a gente não sabe muito dessas coisas, mas vou procurar". Seu filho, Rodrigo, se saracoteava no colo da mãe, e me disse que gosta de brincar, timidamente. Ele tem 7 anos e parece pequeno para a sua idade, cabelos lisos e escuros, pele morena, uma pintinha perto da boca, possui mais dois irmãos. Lindamara é separada, ganha uma pensão de 150 reais e diz que é humilhante ter que pedir dinheiro às pessoas, mas como está sem emprego, não sabia o que fazer. Na hora em que me levantei, disse para ela nunca deixar os seus filhos fora da escola, a mulher me garantiu que não vai permitir. Dei os únicos dois reais que eu tinha, ela segurou com suas duas mãos a minha e respondeu: "Scheyla, obrigada. Eu desejo toda a felicidade para você".
No resto do caminho para casa, não consegui ver beleza nas flores, nem no céu. Aqueles dois pares de olhos não saiam da minha cabeça e várias interrogações se substituíam sem parar. Mesmo com o que ela me desejou, a única coisa que consegui sentir foi tristeza. Pode ser que eu nunca mais veja Lindamara e Rodrigo, mas apenas a lembrança da existência deles já me pesa. E o que será daquele menino, e o que será?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Eu sou o Thiago, irmão do Felipe

"Sinopse" do filme Mutum (2007, Brasil, Sandra Kogut).

Ele tinha um jeito de quem já sabia disso tudo, de quem via além, por detrás das poeiras. A mãe, zelosa, o amava mesmo assim, até tanto quanto tinha estima pelos outros quatro. Já o pai, se irritava rápido e muito. Mas é que aqueles olhos embaçados e verdes não cansavam de correr, pelas cenas, pelos chãos, pelos céus, como se fotografassem cada momento para uma futura análise. Prestava atenção na maçaneta que girava, nos pingos da torneira mal fechada, nas folhas marrons furadas que o vento levantava e derrubava no ar, nas formigas cabeçudas que subiam os troncos. Quase não falava, o que gostava era de conversar e rir com seu irmão-melhor-amigo. E ter ficado só depois de um tempo foi doído, pois é angustiante não ter com quer dividir os planos de futuro, os medos dos pesadelos, a cama de solteiro, as incongruências dos adultos. Mas aos poucos as coisas vão ficando nítidas.

Foto: Divulgação.