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domingo, 29 de novembro de 2009

Sonhos de fim de tarde - parte I

Ele vive ali há algumas horas. Ao todo acha que dá uns trinta anos, contando desde quando tinha quase sessenta. Os seus dias vão embora correndo ou rastejando, um atrás do outro, sempre assim. Mesmo quando parece que não passam, no fundo ele sabe que não tem mais volta. Quando chega visita, logo o homem pergunta: "Você me ajuda a achar uma noiva? Mas precisa ser gente séria, porque aí eu posso sair daqui e fazer minha vida". Esse é o seu sonho mais recente. Desde quando ficou viúvo, passou a morar no S.O.S., em Guarapuava. A instituição ampara as pessoas que, inesperadamente, passam a não ter um lar (ou a não caber no que lhes pertencia), geralmente aquelas que estão nas últimas das infâncias e já não desejam muito além da não-solidão. Agora, enquanto escrevo este texto, o que será que ele está fazendo? Talvez imaginando vidas, de olhos abertos, enquanto mantém o olhar fixo na suave dança das folhas com o vento. Deve perceber que é domingo exatamente pelo sorriso das árvores. Ou então está conversando com algum colega de morada. A conversa, aliás, é o que dá fôlego.


domingo, 22 de novembro de 2009

anamnese

Não fez calor demais no dia em que a cidade sumiu. A manhã acordou opaca, como algo inédito. Os pássaros meio quietos de canções, o sol ardendo em si maior. A menina estava sentada no quintal de trás do lar tão doce, comendo um pêssego azedo, direto da árvore, carregando toda a chuva dentro dos seus olhos cor-de-mar. (A mesma água que inundou o que existia ao redor algum tempo depois). E ninguém um dia pensou, nem nos devaneios de fim, que esse dia chegaria, não tão cedo. Muitos casais não se despediram e outros nem puderam formar um par; um bocado de crianças não terminou as brincadeiras; uns velhos não conseguiram beber seus cafés-de-nostalgia. Hoje, falando assim, pode parecer invenção, mas foi num dia como o de hoje que a cidade desapareceu, sem rastros de outdoors e neons, sem redenção. Isso foi o que a mulher de pele já bastante usada contou, enquanto apertava a testa, num esforço de trazer novamente ao coração o que um dia acredita que viveu.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ele faz cinema

O quarto já ganhara uma aparência amigável, depois fúnebre, agora neutra. Ali ele existia, pois naquele lugar pensava. Podia fazer o que fosse, mas não conseguia fugir do seu fim pensante, mesmo quando se perdia pensando em seu desejo de não mais pensar. Intrépido, procurava segurar com todas as escassas forças o momento, os sons, os aromas. Era quando sentia intimamente sua pele envelhecer, num desespero ritmado, e então percebia que se tratava de um instante de aventura ou como leu um dia: da compreensão da irreversibilidade do tempo. Estava só, deixando-se carregar o vento. Via o tempo atravessar o vilarejo e a cidade já não morava mais nele. Trouxe à lembrança sorrisos de Cecília, Lígia, Bárbara, Rita, Joana. Nunca é tarde, nunca é demais. Lembrou ter ouvido alguém famoso ter dito que viveu uma 'vida sem tempos mortos'. "Bobagem!". Tudo depende das significações dadas, por isso não acreditava em receitas ou dicas para uma boa caminhada. Por que considerar maus os tempos mortos? Cada pessoa é tão cada pessoa e agora ele estava preparado para levantar da cama amassada e representar seu papel. Depois dos pensamentos-só-seus de todo dia. Todo santo dia.

Ilustração: O beija-flor, de "Os Gêmeos".