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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Momentos em fragmentos

No clima das retrospectivas, pensamentos retirados do diário pessoal 2010.

28 de fevereiro: Acordei 9h44, mas o rádio relógio está uns nove minutos adiante. Os armários precisam ficar de portas abertas por conta da umidade desses dias. A chuva não cessa.

22 de março: O fim de semana foi divertido.

5 de abril: Parece que estou ficando adulta, pois não me atraso.

6 de abril: Hoje a Tuquinha morreu. Depois de mais de 15 anos junto conosco. Foi o tempo que lhe deu fisgadas, tirando sua alegria e reflexos. Fica a saudade da cadela malandra que só fazia o que queria e que sabia como pedir carinho.

15 de abril: Estava andando pela rua sem enxergar, apenas indo. Foi quando um homem sentado na calçada, do tipo andarilho, perguntou: - “Por que você não olha para mim?” Continuei, mas a questão ficou na cuca.

1º de maio: Feriado, sol, vento de outono, céu azul, pôr-do-sol fotogênico, colete preto, franganza, lado a lado, gran torino. Logo dia dois.

12 de maio: Uma vez, este ano, comecei a montar um quebra-cabeça de duas mil peças de uma paisagem do Taiti. Muito tempo se passou e nem o céu está completo.

25 de maio: Sangue Novo, miojo, capuccino, frio, lâmpada trêmula, roupa molhada, Hilst, vazio, ausência, acordeom. É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.

3 de junho: Procissão rima com solidão.

25 de junho: E agora que meus pés dão a volta, para casa.

6 de julho: Mundo acumulado.

1º de outubro: E vai passar e até passou, sempre meio sem fim, como tudo e todos que vieram e logo foram de mim.

4 de dezembro: Tem dia que passa bem rápido e eu nem penso. O que fazer com a obrigação?


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Dans la rue

Uma senhora de lenço amarrado na cabeça, meia calça cor de pele, saia e blusa vermelhas e sacola plástica na mão descia a rua em cadência. Lentamente seus sapatos gastos e pretos formavam os passos, num esforço para manter a velocidade média baixa. Ao seu redor, o tempo se espreguiçava e lhe desviava o olhar. Imune, ela estava contente, há mais de séculos voltando para casa. Logo chega e quando chegar ela vai fazer um bolo salgado de fubá na antiga panela de ferro.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Meia cinza, meio azul

No dia em que conheci a senhora do homem das horas, ela não fez questão de sorrir. Mas o jeito como me olhou ao saber o que eu queria deu mostras de que há muitos segundos me esperava; logo gritou para o marido: “a moça do jornal quer ouvir as tuas histórias, em que horário você pode?”. Canelas rechonchudas, dificuldade para andar, rosto sereno, tricô a tiracolo, jeito bondoso e direto, sem enfeitar demais, sem reclamar. Ao contar os causos, o marido se referiu a ela vez ou outra. “Eu e Maria vivemos no nosso paraíso, porque não brigamos”, e a amada deixou escapar um riso de canto, balançando a cabeça como quem se acanha e quer mais. Quando ele entrou nos planos futuros, mostrando com gestos tudo o que pretendia modernizar no comércio, ela ficou em silêncio, depois me falou baixinho, com a certeza de que o esposo não ouviria: “Não ligue para esta parte, ele sonha, mas já estamos perto dos 70”. No decorrer dos minutos criamos uma relação de confiança, dia ou outro eu visitava o casal. A mulher me dava conselhos, fazia perguntas, certa tarde até pude ouvir sua efêmera gargalhada. Quando falei em ir embora, ela ficou séria, depois considerou que era mesmo o melhor para mim. Foi para trás do balcão e voltou com um par de meias de lã cinza - as que eu uso esta noite.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Rei, capitão, soldado, ladrão

Com nuvem carregada de cinza ou em dia de brilho solar; abraço, pulo, bola, choro, riso, abraço. Ainda hoje a mesma canção de outrora no boleio, 'com quem você pretende se casar?' Na vila à beira da BR 277, eles vivem como quem sabe que é melhor ser alegre que triste. Como quem não tem outro jeito. Crescem de uma maneira ou de outra e, aos 13, não cabem muito bem no lugarejo.


Inesperado

Cansaço, mormaço. 
Menino de canelas finas, uns dez anos, havaianas quase arrebentando e cicatriz perto do olho esquerdo. Sem nada nos bolsos do calção jeans, parado na calçada para desfrutar as últimas unidades de um pacote de bolacha recheada sabor chocolate da marca mais barata.
- Tia, tem algum dinheiro?
- Não, nada - respondo sem ânimo e continuo.
Ele também atravessa a rua e vem em minha direção.
- Pode me dizer as horas?
- 18h23.
Continua andando por perto, comendo primeiro o recheio e bem devagar.
- Eu gastei meu único real com a bolacha. Você não tem nem dez centavos?
- Já falei que estou lisa. Acha que estou mentindo?
- Claro que não, eu acredito na senhora - responde sem convicção, agora já ao meu lado. Ele insiste, para sensibilizar: É que eu deveria ter comprado café, mas estava muito caro...
- E você quer que eu crie um dinheiro para você?
- Só se você fosse uma mágica, mas eu sei que essas coisas são mentira, tudo ilusão.
- Será?
- Só as coisas de Deus são verdadeiras - silêncio, clima abafado - A senhora já é bonita!
- Obrigada.
- Casada?
- Quase - minto - E você?
- Não, né! Mas eu dobro aqui, obrigado.
E vai embora para sua casa que fica perto do Parteka.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

à margem, as melhores

As pessoas mais humanas que encontro debaixo das nuvens quase nunca estão na organização de eventos, chefia de escritórios ou ocupando cargos de relevância nas empresas, no Estado, na Igreja. Como o João e a Cleuza, que conheci meio sem querer nos fundos do quintal da festa. Se calados, ambos tendem ao árido, porém, quando conversam, lembram o cheiro de chuva em grama recém-cortada. Eles saíram de casa após o almoço, para quiçá conseguir umas latinhas na tarde do domingo de céu azul. Não deu muito certo, outros vieram antes, mas eles não se abalaram e aproveitaram para contar experiências outras,  como sobre a rotina de trabalho de juntar recicláveis e da necessidade de ir à colheita para conseguir um extra em tempos como estes. Embora juntos há uns dois anos, num puxado construído pelo próprio João, "em um lugar onde tomara ninguém vá reivindicar", o casal não tem foto alguma para enfeitar os cantos. Fiz, então, o favor, de boa vontade e de graça, mas tão logo a Cleuza sorriu, olhou para mim com ternura e avisou que me trará umas batatinhas diretamente do campo em troca do retrato.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Olhai e vede

A beleza não é luxo, é uma necessidade daqueles que são feitos da mesma farinha. Farinha, ovos, fermento, assa um tiquinho. Então surge um corpo pequeno, pensante, cheio de querer ser descobridor de coisas. Nasce sol, põe-se sol, não importa o tanto de dinheiro na conta, todos têm apenas o cotidiano, como a dona Evanir. Seu dia a dia raramente é algo fora do comum, quase parece regra ser ordinário. Mas, no fim, todos entendem destas coisas, e ela pega umas flores de plástico para colocar em cima do armário da cozinha. A beleza não é luxo. É necessidade.
E numa prece, mesmo sem saber se diz o que diz, a mulher recita os versos de Adélia:
'Louvado sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.
Uma vez, quando eu era menina, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento'.


domingo, 10 de outubro de 2010

Isso não me cheira bem


É interessante perceber como as memórias se interligam com cenas, cheiros e objetos e tudo se ajeita de uma forma ou de outra para ficar bem escondido na caixa empoeirada que guardamos dentro de nós. De uma forma incrível aquele protetor solar me traz à mente o Carnaval de 1994, quando choveu todos os dias em que ficamos na praia. O cheiro do xampu de cereja me lembra os meses na cidade que parece uma bacia. O amaciante de embalagem azul ‘é’ uma tia minha, porque ainda na infância a visitei e senti o aroma vindo das roupas que estavam dançando no varal. O brilho labial de cappuccino - já deve ter saído de linha - lembra uma amiga do colégio e os segredos através das cartas. Cri-cri doce de nozes faz eu reviver um dia bonito do ano passado. E tem mais um monte de coisa.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Lote 20

Quando tudo vai mal, é só sintonizar no canal Terra Viva, bem no horário dos leilões. Um modo estranho de relaxar, alguém dirá. O fato é que é indispensável deixar a TV no mudo, claro, ou o efeito vem ao contrário. O catálogo de cavalos e éguas é bom para começar, eles correm de um lado para o outro, brilhosos, quase livres, em takes de 5 segundos não muito bem editados. Tão bonito. Se for leilão de ovinos, é engraçado: as borregas gorduchas andam devagar até alguém que não aparece no vídeo as espantar, então elas dão uma corridinha leve, simulando interesse, as danadas até bocejam. De bois sinceramente não sou muito fã. [Vez ou outra assusta olhar no lado superior direito da tela: 2+2+20 parcelas de R$380 e sempre aumentando]. O programa funciona como aquela antiga tática de 'contar carneirinhos', logo depois de uns minutos de leilão, o sono chega e me leva a pastos tão-tão distantes.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A figura da praça

Por mais de sete vezes pensei em conversar com o homem da praça. Sempre algo acontecia e esse pensamento saía do topo da lista das prioridades elencadas na cabeça. Quando lembrava, ele já tinha sumido. Geralmente eu cogitava deixar o papo para o outro dia, afinal, ele sempre estava lá, eu também... Sua chegada acontecia em alguns horários específicos, marcados, e logo o homem aparecia acompanhado de sua magrela-vermelha-modelo-1972. 
Chegava, fazia o reconhecimento panorâmico de campo, colocava as mãos na cintura, franzia a testa emborrachada e logo em seguida sentava num dos banquinhos cinzas de concreto. Ali continuava, mirando sem pressa, (cotovelo encostado na pequena mesa quadrangular, mão segurando o peso da cabeça, o peso de tudo) guardando com maestria um punhado dos seus segredos. Mas acabei não mais estando por lá, e, confesso, vez ou outra ainda me pego criando enigmas para a figura da praça. Talvez fora o senhor das marionetes, quem comandava todo o espetáculo vespertino de seus bonecos disciplinados para todo dia viverem assim ou de outro modo. Ou então apenas visitasse os Correios diariamente, à espera de uma correspondência que não veio.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Tem gente que vai

Na última visita, mesmo sem ter se levantado da cama, o que já não conseguia sozinha, a tia disse que tinha preparado o almoço: bolo de fubá com ervilhas. "Não foram bolinhos fritos?", questionou minha mãe. "Ah é, foram fritos", corrigiu ela, com os cabelos branquinhos, quase transparentes, como seus pensamentos. O dia era de sol alto e céu claro, mas a tia falou que já tinha pedido várias vezes para que as crianças saíssem da chuva e do barro. Os pequenos, por certo, eram os seus filhos, que não estavam ali naquela tarde e também já não eram as crianças que correm na lama. Há algum tempo sua memória virara um liquidificador, misturando datas, rostos, histórias, segredos. Agora descansa.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Conta um filme pra mim

“‘E ainda sou totalmente calvo’, 
‘Mas o que importa, o médico é calvo, Lênin era... 
E não esqueça os extraterrestres: são carecas e verdes!”

House of fools (2002, RUSSIA/FRA, Dom Durakov)

Cenas tristes e desbotadas, mas que aos olhos de Janna ficam alegres e coloridas se acompanhadas de uma música no acordeon. Baseado em fatos reais, o filme mostra o que aconteceu às pessoas que viviam num abrigo de 'tratamento' psiquiátrico localizado na fronteira quando foi invadido por soldados durante a Guerra da Chechênia, em 1996. (A canção base é a clássica have 'you ever loved a woman'...do Bryan Adams). O longa evidencia um pouco mais das contradições de uma disputa onde os militantes agem como loucos - verdadeiros.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

Concurso

Se eu fosse a jurada, essas seriam as três eleitas: Rainha, 1ª e 2ª princesas da Expogua. Campeãs da beleza de continuar lutando, mesmo quando o dia amanhece impetuosamente em forma de 'não'. Para limpar todo esse lixo, elas espairecem, contam causos e cantam canções. Logo o turno acaba. E como Baleiro disse: há menos beleza num salão de beleza. 


sábado, 31 de julho de 2010

Tia

Não esperando nada acontecer, ele deixa a sala repleta de uma alegria que está sempre por vir. Sorriso singelo, olhinhos escuros e brilhantes, logo uma lágrima, em seguida um grito, acompanhado de risos. Diante de qualquer situação inusitada, o espanto, mas então o abraço e tudo está bem. Melhor que nunca, aliás. O dilema maior da existência é engatinhar em torno da mesa, ultrapassando as cadeiras desafiadoras ou se desvencilhar do fio de lã que prende também o brinquedo (pode ser um antigo pote de sorvete).  'Ah, meu Deus, me dá dois anos, me dá a mão, me cura de ser grande'.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mundo acumulado

Tempo é o código que coordena, decide, anula, altera e faz suspense. Como saber exatamente qual é o momento? De fato tudo segue sem muito por que, quem, quando, onde, como. A corrente do dia-depois-de-outro-dia esconde coisas no subterrâneo da memória, mas revela a fadiga da rotina, o almoço mal digerido, a solidão no mesmo quarto de outrora. Valeu? Ela pensou por alguns instantes, enquanto o peito aberto despejava as  p    a la  v  r a       s.

Vejez + Quintana

sábado, 10 de julho de 2010

Noticiários

Porque a mulher não se queixa nunca, tampouco demonstra cansaço. E, fazendo o que faz, diz: “Estou viva!”, enquanto gargalha. Vive ainda mais quando sonha. Nos sonhos ela corre, pula e, por fim, o abraça. Quando acorda, apenas vê aquele nome bordado num lenço e o rosto no retrato amarelecido dentro da moldura oval. Pena não ter nada das suas aventuras nos noticiários, já que os jornais não cuidam de sonhos.

domingo, 20 de junho de 2010

Para um roteiro de Amor

Muito tempo depois, ela andava quase cambaleando, com as sacolas do mercado, uma em cada mão. O peso estava mal dividido, por isso o ombro direito doía mais. Observou por um instante a sombra monstruosa de si mesma refletida nos paralelepípedos irregulares e pensou, mesmo sem querer, enquanto atravessava para o lado esquerdo da rua, “que bom se ele estivesse junto para ajudar a carregar isso aqui”.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

No feriado é que eles trabalham mais

Carlos, Lico e Deodato saíram de casa com uma motivação diferente no feriado de Corpus Christi: incrementar a renda familiar. É da informalidade que eles tiram o sustento.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Minha casa é meu reino

"Atrás da porta guardo os meus sapatos. Na gaveta do armário coloco minhas roupas. Na estante da sala vejo muitos livros e a geladeira conserva o sabor das refeições. A minha casa é meu reino. Mas eu preciso de outros sapatos, de outras roupas, outros temperos. Para formar minhas ideias e meus sentimentos. Eu sou a soma de tudo que vejo e minha casa é um espelho".
(trecho de uma música da banda biquíni cavadão, que uma vez eu gostava).



sexta-feira, 4 de junho de 2010

Os chapas

Chapa, no dito popular, quer dizer amigo, parceiro. 
Ser chapa, no cotidiano inadiável, é a ocupação de João Maria de Lima, 67 anos, mais conhecido como Galo entre os comparsas. 
Ele está pronto para todo tipo de atividade, como descarregar caminhões de areia ou trabalhar durante o dia em construções. 
A rotina é incerta, mas o jeito é sair de casa e ir se juntar aos outros no "ponto-dos-chapas", localizado no estacionamento do mercado, sempre torcendo para que algum serviço apareça. 
Galo diz que recebe aposentadoria de um salário mínimo, o que não supre todos os seus gastos. "Vez ou outra preciso gastar com algum imprevisto na saúde e também tem as coisinhas a mais que as crianças querem... é por isso que continuo fazendo isso", conta o João, que não ouve muito bem e tem os olhos cabisbaixos.


domingo, 30 de maio de 2010

Sou um pobre menino, acreditai!


E no meio de tanta gente - Parte VII

No primeiro plano, José Ribeiro, que garante sua renda na informalidade, vendendo sucos naturais há seis anos. "Tem de laranja e de laranja com goiaba, se eu fosse você escolheria o que tem goiaba". Atrás, olhando o movimento, Haroldo do Amaral, o homem que faz trabalhos com letras copiadas a mão e sabe o Esperanto. Faz também pintura em casca de ovo de galinha e em grão de arroz. Figuras encontradas na esquina da vida incessante.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

vira latas

Jogou-se na calçada e viu cada coisa no seu lugar, menos o sol, aquele maldito. A garoa era fina, o vento amargo, o dia doído. Desejou ansiosamente o adeus, pois, quando se está cansado como ele estava, morrer não parece uma ideia tão terrível. Quase entregue, quase para lá da linha imaginária... foi quando chegou um cachorro banzé e lhe olhou no mais fundo dos olhos, como há muito ninguém fazia. Também abanou o rabo e prometeu que, a partir daquele momento, eles seriam amigos.

Homem Sem Nome que Falou Comigo

Ele era um típico andarilho
pé no chinelo de dedo encardido
revelando seu estilo bem maltrapilho
na mochila, as anotações de uma vida
um monte de coisa pra contar
sem ninguém pra ouvir
sem terra, sem teto e sem alguns dentes
apenas um pobre diabo a quem as pessoas desviam
ou mentem
ele falou sobre trens, temperaturas, capitanias hereditárias, Tocantins
"desculpa eu tomar o seu tempo, é que tenho um monte de história
e um dia chego lá", disse,
sumindo

segunda-feira, 10 de maio de 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

abril despedaçado

Ele acordou novamente sem as respostas que pedira antes de cair no sono. Passou os dias como aquele ursinho de pelúcia pink caolho, esquecido entre tantos outros dentro da antiga máquina que funciona a base de moedas. Ansioso por ser carregado para fora pela mão mecânica. Mais eis que choveu muito e poucas pessoas foram até o parque.

eu não estava lá, mas eu vi

O homem de mais idade vestiu a calça social cinza, as meias bege que só têm um furo no dedão direito, o tênis kichute que não cansa tanto os pés, a camisa de um xadrez que pende para o azul, o blazer de ombreiras que ganhara da esposa em algum aniversário (ou natal), colocou o chapéu estilo Indiana Jones, foi até o quintal e pegou a bicicleta verde musgo. Assim, se conduziu ao centro da cidade, para sacar a aposentadoria. Depois parou um pouco na praça, só para observar, como um menino faria.

terça-feira, 13 de abril de 2010

E no meio de tanta gente - Parte VI

No sábado (10), Xiripito foi o ponto colorido na manhã cinzenta de outono, enfeitando uma Rua XV de Novembro qualquer. "Isso (de ser o que sou) está na minha alma", disse o palhaço, sorrindo com os olhos. E, naquele exato momento, quantas outras pessoas estavam alegres como ele?


quinta-feira, 1 de abril de 2010

E no meio de tanta gente - Parte V

Para quando o sol desistir de sair: "João, o guarda-chuveiro", se é que existe esse título... Ele busca em casa o objeto danificado e devolve em domicílio também. Não titubeia na resposta quando questionado se vale realmente a pena mandar consertar uma sombrinha velha estampada com florzinhas descoradas ou um guarda-chuva-comum-todo-preto: "Claro! Eu cobro mais barato do que é um novo e as pessoas acabam pegando amor por aquele que elas têm". Ele mostra, orgulhoso, a pequena oficina onde há mais de 20 anos troca os ferrinhos e também inventa as suas artes, como as formas de assar pão feitas de latas inutilizadas de tinta. O homem, que tem 1,55m de altura, gosta do que faz.



quinta-feira, 25 de março de 2010

E no meio de tanta gente - Parte IV

O homem sabe das horas e mesmo assim não tem tempo. Hércules já viveu aproximadamente 635448 horas. Desde quando tinha 14 anos ele tem como ofício o conserto de relógios, além de comercializar alguns em sua pequena loja, que tem um nome até sugestivo: Hora Certa. "Foi uma ideia que eu tive e achei muito bonita!". Um relógio de plástico branco disposto na parte de fora da porta para quem passa apressado e tantos outros dependurados, dos simples àqueles mais antigos, de coleção. Os ponteiros lentos e grossos vão devagar atrás dos ponteiros finos e ligeiros, marcando a passagem, fazendo as horas continuarem incessantemente.


sexta-feira, 19 de março de 2010

E no meio de tanta gente - Parte III

Porque resistência não é apenas revolta, mas também pequenos atos de recusa à escravidão. "Mãe vai à comemoração de Bodas de Ouro da filha, em Gonçalves Júnior", era a manchete. Com 91 anos, Dona Ana, a mãe, gosta de viver tranquilamente no seu pequeno lar. Faz o almoço, lava a própria roupa, dá atenção aos cachorrinhos que são uma boa companhia. Não concorda com aqueles que querem que ela descanse mais. "Eu não vou ficar deitada!", diz e ri.

segunda-feira, 8 de março de 2010

eu quero um de morango!

Perto das cinco da tarde, o quiosquinho fica parecendo um formigueiro. Em pouco tempo, muitos pares de olhos castanhos claros ou azuis esverdeados param como que fascinados pela mágica-máquina-transformadora do líquido escuro numa divertida massa que vai enfeitar a casquinha já murcha. Pessoas de um metro e setenta ou de até menos de um metro se rendem ao momento, enquanto a senhora de cabelos grisalhos manuseia o instrumento e o senhor de pele morena pergunta para o próximo da pseudo-fila: "quer de abacaxi, morango ou uva?".
A consistência inexistentemente inexplicável do sorvete americano conquista aos adultos e às crianças. Com ênfase, um garotinho de cabelos queimados pelo sol procura mais umas moedas dentro do estojo guardado na mochila do Batman. Ele esperou toda a tarde para se esbaldar com a delícia, ainda na aula de ciências começou a sentir o gostinho, mas parece que faltam dez centavos para completar um real. "Ai, ai, ai", diz, preocupado. Ele pede emprestado a uma colega de sala que, por sorte, tinha alguns centavos extras no bolso. Ufa!
Observar a movimentação em torno do estranho sorvete é interessante... Como aquele casal consegue sua renda vendendo tiquinhos de satisfação aos outros, dentro da pequena barraca de azulejos bonitos. Isso tudo lá na cidade alta, Rua 19 de dezembro.


quarta-feira, 3 de março de 2010

Não fosse ela

Se não fosse ela, a tarde teria sido parecida com as de antes. Ah! Que bom que lá estava a senhora de saia sobre a calça, encostada timidamente no muro, deixando a esquina parecida com uma pintura.



Ambos

Com o interior forrado de florido, ela insistiu uma vez mais. As palavras, todavia, estavam surradas, como se há muito não fossem. Ele ali, frente à menina, esmagando o tempo com banalidades. Mesmo assim, se pudesse, ela empacotaria o instante para repetí-lo vez ou outra, principalmente nas tardes de terça. Um e outro são apenas dois na massa, entre tantos céus e séculos. "Adeus novamente", dizem, desviando o olhar.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Às seis da tarde

Hoje eu pensei que queria falar sobre um tema específico. Era sobre as mulheres que eu vejo todo dia no caminho para casa, perto do momento do sol se despedir. Algumas são domésticas, outras caixas de supermercado ou talvez zeladoras. Angustiam-me os seus olhos, que se abaixam e sabe-se-lá-para-onde-é-que-vão. Sem querer, acabei lendo um texto da jornalista e escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti, que, incrivelmente, continha aquilo que eu poderia ter pensado em escrever:

“Às seis da tarde as mulheres choravam no banheiro. Não choravam por isso ou por aquilo, choravam porque o pranto subia garganta acima, mesmo se os filhos cresciam com boa saúde, se havia comida no fogo e se o marido lhes dava do bom e do melhor. Choravam porque no céu, além do basculante, o dia se punha. Porque uma ânsia, uma dor, uma gastura, era só o que sobrava dos seus sonhos. Agora, às seis da tarde, as mulheres regressam do trabalho, o dia se põe, os filhos crescem, o fogo espera
e elas não podem,
não querem
chorar na condução”.

sábado, 30 de janeiro de 2010

E no meio de tanta gente - Parte II

Mas Seu Gaspar Valenga, o Ferreiro, confessa que, vez ou outra, sonha com o barulho do martelo na bigorna. "Tim, tim, tim! Eu estou puxando a chapa, logo está vindo chuva e, se vier, vai apagar o fogo... Ah, enquanto eu tiver vida, vou ter a saudade", diz.




sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

E no meio de tanta gente - Parte I

Calçando um chinelo que ele mesmo fez, Seu Tonico falou: "Menina, nada mais me abala. Já fui muito esfolado nessa vida", e riu um riso bonito, embora sem muitos dos dentes. A alegria estava nos olhos. Torce para o Corinthians desde 54, quando foi ver um jogo do alvi-negro contra a Portuguesa. Quem o levou fez a pergunta: "Vai torcer para qual?", ao que o pequeno Tonico respondeu: "Para os que estão de branco... E continuo até hoje".


Mais fotos em http://www.flickr.com/photos/scheylahorst