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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Semáforo vermelho para João

Conheci João Maria no mês passado. Quando voltava para casa após o expediente, o semáforo ficou vermelho e ele meio que me ofereceu umas balas de goma. Fiquei com dó dos seus olhos e comprei. Lá se foi um real. Noutro dia, o mesmo sinaleiro quis ser rubro na minha vez. Perguntei: “como vão as vendas?”. Ele, sem jeito, respondeu: “xi, bem fraco”. Tarde dessas resolvi conversar com mais calma e entender o que o levou a comercializar Gomets naquela quadra. Embora já prevendo, constatei que o homem que vende doces tem uma vida amarga. Papo vai, papo vem, combinamos que eu escreveria sobre ele no jornal. João se matriculou há algumas semanas num centro de educação de jovens e adultos, pois quer aprender algo com o objetivo de conseguir um emprego que o trate menos como animal de carga e mais como ser humano. Ontem, bem quando o semáforo fechou, deixei o exemplar com ele, que olhou as páginas rapidamente e guardou a edição na bolsa verde musgo que abriga as caixas de balas. Hoje, no mesmo cruzamento, quis saber sua opinião. João, de 42 anos, falou: “Legal a minha foto lá. Pena eu não saber ler, daí não entendi nada do que você disse de mim”. O semáforo abriu e eu acelerei. Aquelas palavras foram digeridas bem depois do almoço.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Entre louças e sonhos

Mari, 54 anos, empregada doméstica.

Como você se define?
Eu sou a Mari cheia de manias, para quem tudo tem de ser certinho e que é exigente consigo mesma.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre pedras no caminho

Acir não quis ser coitado. Não foi e nem tem sido fácil sustentar a escolha. A saga começou na infância, quando não o queriam na escola junto das outras crianças. Diziam que não tinham estrutura suficiente para ele, seria complicado demais. Aprendeu a ler e a escrever dentro de casa, e a pintar quadros nas oficinas da Apae. Várias pinturas estão penduradas na sua sala. Só aos 15 pôde se matricular no ensino regular, por isso, percebe que as coisas melhoraram bastante hoje em dia, pelo menos na teoria. O problema é que ainda não é o suficiente - são tantos pequenos desaforos no dia a dia, tantas pedras no caminho. Acir já recebeu olhares de piedade, de dó, de estranhamento, mas não deixou os vários olhares piorarem o seu. 
"Às vezes eu ia com meu irmão à farmácia. Eu queria comprar algo e meu irmão me acompanhava. O atendente perguntava para meu irmão o que eu queria. Meu irmão dizia: 'eu só vim junto, pergunta para ele, ué'. Era como se, por estar na cadeira de rodas, eu não tivesse autonomia alguma", relembrou. "Às vezes eu me sinto à margem. Mas já não abaixo a cabeça".


Reportagem completa publicada na edição dos dias 27 e 28 de agosto do Diário de Guarapuava.