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sábado, 26 de setembro de 2009

Cadência

Faz uns dias que a primavera se fez e sinto que esta demorou mais do que o costume para chegar. Ontem eu me esqueci de regar as tulipas na garagem, um cheiro de jasmim brotou da gaveta das toalhas de banho e o céu ficou perturbadoramente violeta. Tudo cresce neste instante, justamente enquanto tento não acreditar que brincos-de-princesa não enfeitam mais nosso quintal. Aliás, nosso talvez já não seja o correto, o meu. Sim, o meu. Mas ainda faço a mesma quantia de arroz todo dia, duas xicrinhas. Sobra tanto que não sei se deixo na mesa para quando você retornar da sua caminhada matinal ou se jogo aos pássaros que cantam entre as margaridas. Confesso que ainda não abri as duas portas do lado direito do armário conjugado, parece que estão trancafiadas de memórias invencíveis. Cada uma das roupas me lembra um sorriso seu, que traz outras coisas junto, como o seu jeito de parar com as mãos no bolso. Isso pode soar meio egoísta, mas a amargura nos meus dedos me impulsiona a lhe escrever: Você bem podia ser como aquela flor de plástico amarela que guardo na sala de costura e permanecer aqui, mesmo quando não é primavera.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Acredite e ele aparecerá

Meu irmão me disse que eu só não vejo por não mais brincar na terra, ou por ter deixado de sentar na calçada nas tardes preguiçosas, como outrora. Mas cá entre nós, eu duvide-o-dó que seja por esses motivos. O tatu-bolinha é um mito de infância, isso sim, que só é visto por olhos de ver e só pode ser tocado por dedos miúdos, quando *ALACAZAM*: a mágica! Ele se contorce todo e finge de morto, virando uma bolinha cinza. Lá dentro segura a respiração, nem um barulhinho ou sinal de vida, até que passa um tempo, o danado retoma a coragem e segue seu caminho, apressado. Se eu fosse do tipo ortodoxa, contaria que ele é um artrópodo, pertencente à rama dos crustáceos superiores e à ordem dos isópodos, com a desenvoltura de uma sanfona. Ah, eu ouvi dizer que tem muita gente que odeia o pobrezinho, só porque ele gosta de soja, girassol e milho (mas quem é que não gosta?). O tatuzinho tem tantas perninhas que quase não dá para acreditar e ontem ele estava andando ligeiro na calçada laranjada. Silenciosamente o segui, certa de que se me percebesse deixaria a pressa de lado para o ritual do matreiro. Gente do céu, que bicho mais doido, repleto de encantos e que me lembra outros anos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A notícia que não saiu no jornal

Seu Geraldo é guarapuavano e trabalha no ramo da venda de algodão doce há uns vinte anos. Anda por todos os bairros: Santa Cruz, Boqueirão, Santana, onde der. Agradece quando faz sol, principalmente no domingo a tarde (ultimamente ele deve estar triste). Já tentou sair com o tempo chuvoso, mas não conseguiu vender nada, porque as pessoas se escondem e sequer ouvem o seu chamamento. Ele logo explica: Algodão + máscara de super-herói é R$2, sem máscara, R$1,50. O homem é do tipo convencional. Sem grandes sonhos, ambições, sorrisos, alegrias. Não se vê nos seus olhos o reflexo do céu, tampouco em suas palavras desejos de porvires bons. Ele não chama atenção quando passa, a não ser quando arma o guarda-sol em cima da sua bicicleta. Parece que não tem orgulho do que faz, de certo não imaginava sua vida assim em outros tempos, mas é assim que é, e ele aceita, dando um jeito de continuar. Talvez alguém diria: não há nada o que se dizer sobre esse pobre humano, abandonado na vida como um algo usado e antigo, olhado de longe pelas pessoas (que não são crianças). Mas é que Seu Geraldo representa um tanto de gente. Gente que de alguma forma perdeu o fio que dava sentido ao viver, mas ainda assim vivem por aí. Gente que espera um dia de sol após o outro, para vender, receber, comer e, aos poucos ou aos muitos, envelhecer. Gente, ué.


sábado, 5 de setembro de 2009

Prelúdio nº 0

Ouviu silenciosamente o chorinho no violão mal ou bem afinado. Tanto fazia, porque a melodia era rara e cada dedilhada tocava agudamente no mais escondido do seu ser. Não adiantava o esforço, não conseguia entender porque os laços eram tão frágeis e quase sempre superficiais. Queria das pessoas um algo além do trivial que fosse, mas parecia ser o único, numa sala cheia de vazios ansiosos para ver o gol. Bem lembrou que dia desses ouviu uns comentários sobre ser necessário humanizar os humanos. Agora fez sentido. Para ele, é claro.