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quinta-feira, 25 de março de 2010

E no meio de tanta gente - Parte IV

O homem sabe das horas e mesmo assim não tem tempo. Hércules já viveu aproximadamente 635448 horas. Desde quando tinha 14 anos ele tem como ofício o conserto de relógios, além de comercializar alguns em sua pequena loja, que tem um nome até sugestivo: Hora Certa. "Foi uma ideia que eu tive e achei muito bonita!". Um relógio de plástico branco disposto na parte de fora da porta para quem passa apressado e tantos outros dependurados, dos simples àqueles mais antigos, de coleção. Os ponteiros lentos e grossos vão devagar atrás dos ponteiros finos e ligeiros, marcando a passagem, fazendo as horas continuarem incessantemente.


sexta-feira, 19 de março de 2010

E no meio de tanta gente - Parte III

Porque resistência não é apenas revolta, mas também pequenos atos de recusa à escravidão. "Mãe vai à comemoração de Bodas de Ouro da filha, em Gonçalves Júnior", era a manchete. Com 91 anos, Dona Ana, a mãe, gosta de viver tranquilamente no seu pequeno lar. Faz o almoço, lava a própria roupa, dá atenção aos cachorrinhos que são uma boa companhia. Não concorda com aqueles que querem que ela descanse mais. "Eu não vou ficar deitada!", diz e ri.

segunda-feira, 8 de março de 2010

eu quero um de morango!

Perto das cinco da tarde, o quiosquinho fica parecendo um formigueiro. Em pouco tempo, muitos pares de olhos castanhos claros ou azuis esverdeados param como que fascinados pela mágica-máquina-transformadora do líquido escuro numa divertida massa que vai enfeitar a casquinha já murcha. Pessoas de um metro e setenta ou de até menos de um metro se rendem ao momento, enquanto a senhora de cabelos grisalhos manuseia o instrumento e o senhor de pele morena pergunta para o próximo da pseudo-fila: "quer de abacaxi, morango ou uva?".
A consistência inexistentemente inexplicável do sorvete americano conquista aos adultos e às crianças. Com ênfase, um garotinho de cabelos queimados pelo sol procura mais umas moedas dentro do estojo guardado na mochila do Batman. Ele esperou toda a tarde para se esbaldar com a delícia, ainda na aula de ciências começou a sentir o gostinho, mas parece que faltam dez centavos para completar um real. "Ai, ai, ai", diz, preocupado. Ele pede emprestado a uma colega de sala que, por sorte, tinha alguns centavos extras no bolso. Ufa!
Observar a movimentação em torno do estranho sorvete é interessante... Como aquele casal consegue sua renda vendendo tiquinhos de satisfação aos outros, dentro da pequena barraca de azulejos bonitos. Isso tudo lá na cidade alta, Rua 19 de dezembro.


quarta-feira, 3 de março de 2010

Não fosse ela

Se não fosse ela, a tarde teria sido parecida com as de antes. Ah! Que bom que lá estava a senhora de saia sobre a calça, encostada timidamente no muro, deixando a esquina parecida com uma pintura.



Ambos

Com o interior forrado de florido, ela insistiu uma vez mais. As palavras, todavia, estavam surradas, como se há muito não fossem. Ele ali, frente à menina, esmagando o tempo com banalidades. Mesmo assim, se pudesse, ela empacotaria o instante para repetí-lo vez ou outra, principalmente nas tardes de terça. Um e outro são apenas dois na massa, entre tantos céus e séculos. "Adeus novamente", dizem, desviando o olhar.