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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

solidão

Parece que ele passou dias esperando eu chegar, para começar a contar os causos que estavam presos na garganta. Olhei em sua direção e disse: "Boa tarde!". Ele sorriu, espontaneamente, já sem muitos dos dentes. Sentei um pouco, para perguntar se aquele senhor sabia alguma coisa sobre a Capela do Degolado. Seu Alcindo disse algumas palavras sobre isso, e sem incentivos, começou a me falar sobre sua vida. Foram muitos relatos, nos quais ele exigia a minha concordância perguntando a todo momento: "né?". Depois de dois segundos de silêncio e olhar perdido, ele falou: "Já tá para doze anos já, que minha esposa faleceu. Desde então a minha casa é uma solidão. Eu moro ali, mas é como se eu vivesse em baixo daquela ponte, de tanta falta que ela me faz".
Tive que me despedir, já escurecia. Ele permaneceu sentado ali, a olhar as mesmas escadas que mira todos os dias. Talvez à espera de alguém, que não vai voltar.


Foto minha, numa tarde qualquer, em Guarapuava.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

doce vida amarga

Passam os dias. Inesperadamente tudo permanece sem alterações visíveis, ao som de melodias repetidas, sob um céu que sabe coisas demais para deixar de ser cinza. Cada vez é mais difícil trazer à memória momentos de ontem, ou do segundo que acabou de passar. "Viver pelo o que há de vir", eles não cansam de repetir. E aquele senhor da beira da estrada, com as mãos envelhecidas, enche os olhos de água quando começa a falar sobre como é a sua vida, e diz que vai continuar ali, só mais uns anos, ele e as suas batatas, para ver o que acontece. Uma hora algo de muito bom deve acontecer. Uma hora ou outra.


Na BR 277, próximo à entrada de Guarapuava.
Foto minha.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

na serra da esperança

Alheia aos barulhos da estrada, aos reclames dos indignados e às explicações dos uniformizados, ela desembarcou do ônibus nº5202, juntamente com seu crochê companheiro de todos os dias. Encontrou um morrinho confortável na grama, sentou, e, sem palavras, mostrou a todos que, em certas ocasiões, só vale a pena esquentar a cabeça se for com a toquinha.



Foto minha, voltando para Guarapuava, na Serra da Esperança, após o ônibus da Princesa dos Campos decidir não mais trabalhar.
Esta foto não é pública. Todos os direitos reservados.

domingo, 5 de outubro de 2008

ah, não me diga!

Domingo de eleição municipal. Uma falsa sensação de escolha dos que vão ocupar um gabinete ali na Rua Brigadeiro Rocha ou ganhar uma foto emoldurada na parede da Câmara paira no ar. Parece tudo normal, gelado, cinza, corriqueiro. É que todo mundo quer poder. E os que podem quase sempre são os que arrumam uma gasolina ali, um emprego lá. Ou os que colocam pedra brita na rua que era de cascalho. Os interesses são diversos. Os sonhos são tão pequenos e ingênuos, que chegam a dar sono. Nada há de surpreendente. Está tudo muito bom do jeito que está. Está ótimo, aliás. Continua pegando a rede Globo na televisão da sala, ao menos o direito à novela das oito eles não negam a esse povo esperançoso!
E viva Diogo Pinto de Azevedo Portugal, e viva Padre Chagas! E vida Krügers, Mattos Leões, Silvestris
e Carlis dessa terra de gente intrépida, da qual cidadãos agiram como mouros e cristãos em interpretações valorosas, como se na interpretação lutar fosse mais agradável! E viva todos os nomes das ruas e seus respectivos donos! Comemoremos porque acordamos e dormimos em nossas camas quentinhas! Brademos as paródias de vitória dos carros de som numa única voz! Sejamos porta-bandeiras de números com rostos e sorrisos milimetrados! Acordemos na segunda-feira de manhã com nossas reuniões agendadas!
Nasce o sol, põe-se o sol, e tudo permanece igual.