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domingo, 27 de julho de 2008

Num passado remoto perdi meu controle

A minha Tv tá louca, me mandou calar a boca e não sair do sofá
Xanéu nº5 - TM.

Enquanto o
Fantástico ensinava como ter etiqueta num jantar de luxo, mostrando passo-a-passo a forma de utilizar cada louça de maneira requintada para a ocasião, o Programa do Gugu dava um empurrãozinho para que mais uma família pobre construísse sua casa própria, abusando do suspense, para dar zoom nas lágrimas e tornar tudo mais emocionante. A Rede Tv mostrava várias mulheres iguais de biquíni e duas pessoas vestidas de forma vexatória segurando microfones e falando coisas sem sentido, os chamados humoristas. Na Band alguns homens falavam ao mesmo tempo, com uma ênfase assustadora... Era sobre o Campeonato Brasileiro de futebol, é claro. Cada qual defendendo o seu ponto de vista sobre a rodada da tarde. A Record colocou pela vigésima oitava vez o filme Esqueceram de Mim, talvez para que ninguém mesmo se esqueça da brilhante atuação do então menino Macaulay Culkin.
Televisão me irrita cada dia mais.
Mudar de canal num domingo à noite dá calafrios.

Desabafo de começo de semana.
21h59m35s.

incerto ou errado

A menina de pano tinha um jeito tranqüilo de levar a vida, levada, faceira. Tudo o que ela queria, naquele dia de Santo que realiza pedidos, era morar no sorriso daquele menino. O menino esquisito, que para ela era o mais bonito, o mais valente, o mais parecido com um sonho-bom-de-domingo. Mas a menina lembrou que ela era de pano, linho singelo; e ele de madeira, lenho sincero.
E as madeixas de lã entristeceram.
Má deixa para lá, afinal, quem é que acredita que menina de pano sofre desse tipo de dor?

Foto minha.
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quarta-feira, 23 de julho de 2008

sem saber que o fim já vai chegar

Lua-de-mel de casal paulista acaba em tragédia em Alagoas - 23/07/08

Eles se casaram no sábado. Todas as economias de tantos meses foram gastas em menos de 4h. Convidados bem vestidos, lembrancinhas do enlace... Tudo como deveria ser. Após a festa e intermináveis sorrisos, os agora casados queriam aproveitar os poucos dias que poderiam passar juntos e sozinhos num lugar bonito e sob uma lua doce, ao som dos pássaros que iriam embalar os momentos inesquecíveis com as suas canções de bem-querer. Sem pressa, pois esse era apenas o começo do fim dos seus dias, o começo de uma história sem fim. Era para ser, sim.
Na tarde de terça-feira foram nadar numa praia tão linda de se ver que eles pensaram ser um sonho. Água morna, vento solar. Era exatamente o lugar onde os dois queriam estar. Bom demais para ser verdade.
Mas toda beleza tem seus perigos... Há quem diga que existem coisas que acontecem porque deveriam ser, outros acreditam que é Deus que parece às vezes se esquecer.
E desde então, a cabeça da moça não para de repetir uns versos de uma música que ouviu um dia... "doce o mar, perdeu no meu cantar... E agora o amanhã, cadê?".

Texto meu, não necessariamente condizente à realidade.
Notícia disponível em Uol Notícias
Canções citadas: Conversa de Botas Batidas e Dois Barcos - Los Hermanos.

domingo, 20 de julho de 2008

"e esse tempo que não quer saber de chover"

Seu Adolfo gosta de pescar, de limonada em tarde de domingo e de conversar na janela, sem pressa. Seus olhos pretos lúgubres carregam histórias de outros tempos, tempos de mistérios, de honra e de seres prodigiosos.
Foto minha.
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quarta-feira, 16 de julho de 2008

João

João tinha um nome comum. Dava em toda esquina, mais que piolho nas cabecinhas de crianças nas periferias desse mundão. Nome de Santo, de trabalhador, de homem digno e pobre. Pobre de dinheiro, mas não de coração, isso ele pensava até então.
Mas não, no fundo ele sabia que não tinha essa dignidade que eles falavam que gente humilde recebia, porque nada parecia importante demais para ele. Entendia que nada tinha importância porque o seu pensamento não passava pelo bem-estar dos outros, geralmente só lembrava de comer e se divertir no bar com o bilhar e o baralho. Com o dinheiro que sobrava comprava uma boa mistura de domingo e um bom vinho. Amava vinhos. Entendia que não merecia viver muito, porque não quis viver para alguém, jamais se casou, vivia só. Só e sozinho. Solitário, somente. Tinha dó das crianças da vizinhança, descalças e ranhentas. Cheias de talento para o esporte, para as novelas, para as Academias, mas destinadas a um futuro que eles consideravam medíocre, rotineiro, sofrido. A base da sociedade estava ali, os que iriam construir os prédios, embalar os hamburgers, separar as verduras, e os que apertariam os parafusos dos carros do ano. Mas não, nunca morariam numa suíte, nunca comeriam fast food entre a aula de ginástica e o teatro, nunca seriam donos do automóvel 0km.
João via todas essas coisas e antes até acreditava que tudo tinha um jeito. Mas com o tempo foi perdendo a fé, como os velhos perdem os cabelos. Dia a dia, hora a hora. Notícia a notícia... Após alguns anos ele só queria mesmo era tomar seu bom vinho tinto suave da marca barata assistindo a televisão que chiava na hora do gol. Incrível, porque era exatamente no momento do gol.

dá e sobra

Só um pneu e uma corda. Mas ela imagina que seja um avião, ou uma canoa, ou asas. Depende de quando ela fecha os olhos, o que vier na mente vira história, vira verdade, vira toda a tarde.


Foto minha.
Esta foto não é pública. Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vidas por diamantes

É que de vez em quando, simplesmente, não dá vontade de acreditar.
E dói no peito, uma dor começo, sem fim, sem meio.

Duas notícias. Duas imagens.
O mesmo site.O mesmo mundo:

"Homem reage ao ser socorrido por integrantes da Cruz Vermelha no porto de Almeria, na Espanha, nesta quinta-feira; quinze imigrantes africanos morreram, incluindo nove crianças, por exposição ao calor enquanto tentavam atravessar da África à Europa numa balsa."
(Busca de uma vida melhor? Desespero? Enfim xenofobia).

"Carolin Wolf exibe o que pretende ser o mais caro enfeite de Natal do mundo em Lauscha, na Alemanha; bola natalina, com ouro e diamantes, custa cerca de US$ 31,4 mil."
(Natal? Enfeites? Máscaras?).

Fotos: Fernando Bonnila-Reuters e AP.
Disponíveis em Uol Notícias.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Debaixo do travesseiro

A tarde já ía ao fim naquele dia abafado. Ela sabia que o sol estava atrás do coletivo de nuvens cinzentas, porque a professora de ciências falava que mesmo não aparecendo, ele estava lá, e como o se tratava de uma estrela de quinta grandeza, ela só não entendia porque ele estava tão tímido há tantas semanas. Um dia ela desenhou um cometa e ganhou 5 estrelinhas no caderno brochura que tinha o hino nacional na contra-capa. Em baixo a mesma professora colocou um carimbo: Você terá um futuro brilhante!
E ela não imaginava que aquele desenho que não custou mais que uma hora da tarde de domingo iria influenciar em sua vida a tal ponto de iluminar os dias que viriam. Se bem que ela gostava de colecionar essas estrelinhas para mostrar o caderno ao seu pai, só para ouvir ele rindo e a abraçando com orgulho, o que não seria tão comum depois de um tempo, como ela descobriria após os anos escorrerem.
[falta escrever esse(s) parágrafo(s)... Ou não]
E hoje vê que a infância serviu numa gaveta cada vez mais esquecida, empoeirada e ruim de abrir. A ferrugem nos brinquedos, nos sorrisos, nos cantinhos das fotografias. A alma pesada, de um tanto de coisas que nunca pensou em carregar um dia. Agonia perto da garganta. Medo na noite sem Lua, e o galo que morava em cima do armário sumiu. Mal lembra dos gostos das merendas da escola, das frutas roubadas e da sensação de simplesmente não se sentir culpada.

Sem remetente, sem destinatário

Alto lá! Não aja como se eu soubesse que seria assim. Se sim não, eu não teria mergulhado tão fundo no teu perfume . Ou sim. Mas não venha dizer Adeus. Há Deus, há tempo que passa, há saudade que dói e há despedida que não quero. Há que se ser triste para entender o sentimento de bem-querer. A mim ficam as horas de ilusão e os abraços de sentir o coração. Não, não me peça para devolver. Cada pedaço que não consegui colar do pranto, da agonia. Mas há o amanhã, e dizem que ele chega com roupa nova e florida. E eu deixo com você o ontem e o que eu não terminei de escrever, as reticências nas frases que te daria de presente no próximo dia de sol. Vai, e não precisa falar o que tinha decorado.
Já sei de cor a cor do seu olho e prefiro não mais ver o seu sorriso de bossa nova.


para ouvir: Rosa desfolhada - Toquinho e Vinícius...

domingo, 6 de julho de 2008

metáforas

quem matamos para conseguir as riquezas desse mundo?

"...Era um pequeno conto meio soturno sobre um homem que encontra um cálice mágico e fica sabendo que, se chorar dentro dele, suas lágrimas vão se transformar em pérolas. Mas, embora tenha sido sempre muito pobre, ele era feliz e raramente chorava. Tratou então de encontrar meios de ficar triste para que as suas lágrimas pudessem fazer dele um homem rico. Quanto mais acumulava pérolas, mais ambicioso ficava. A história terminava com o homem sentado em uma montanha de pérolas, segurando uma faca na mão, chorando inconsolável dentro do cálice e tendo nos braços o cadáver da esposa que tanto amava.

... Sacudi Hassan, para acordá-lo, e perguntei se queria ouvir uma história.
Ele esfregou os olhos, sonolento, e se espreguiçou.
- Agora? Que horas são?
- Azar da hora! Essa é uma história especial. Fui eu mesmo que escrevi.
- Então tenho que ouvi-la - disse ele já empurrando o cobertor para se levantar.
... Quando li a última frase, ele fez com as mãos o gesto do aplauso sem som.
- Mashallah, Amir agha. Bravo! - disse ele radiante.
- Gostou? - indaguei eu, esperando sentir o sabor, e como era doce, da apreciação positiva.
- Algum dia, Inshallah, você vai ser um grande escritor, e gente do mundo todo vai ler suas histórias... Mas posso perguntar uma coisa sobre a história? - indagou envergonhado.
- Claro.
- Bem... o que eu queria perguntar é por que o homem matou a esposa. Na verdade, por que ele precisava estar triste para derramar lágrimas? Será que não podia simplesmente cheirar uma cebola?".

HOSSEINI, Khaled. O caçador de pipas; tradução Maria Helena Rouanet. RJ. Nova Fronteira: 2005. pág 39 e 40.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pavê

Ah... Melhor não ler se ainda não viu e quer ver.


O que fazem as pessoas em busca da tomada de território? Até onde vão os homens para firmar seu espaço na terra, e, conseqüentemente no mundo? A história do homem é marcada por lutas e sangue, em torno do estabelecimento. Luta por algo que possa ser chamado de “meu”.
No filme Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles, inspirado no livro homônimo do albanês Ismail Kadaré, o sertão brasileiro torna-se palco de uma disputa por terras, que ocasiona a busca pela vida. O drama não é imóvel, visto que antigamente histórias como a ilustrada eram comuns e poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. As lutas entre as famílias eram cobradas por sangue. Como numa guerra, existiam regras pré-estabelecidas, que não deviam ser desrespeitadas. Sérgio Machado, em seu livro Lutas de Famílias no Brasil, comenta sobre a organização dessas disputas. “Lutar pela família é lutar pela própria sobrevivência. Fugir disto seria infringir a regra, ir de encontro ao costume, ameaçar a própria existência e o equilíbrio social". A partir desse trecho, percebe-se que os desentendimentos tinham um caráter superior, e abrangiam a honra e conseqüente existência das famílias em seus lugares. A tradição amarrava as atitudes e a não-continuidade dessa era impossível.
No filme, a luta se dá entre duas famílias. Uma estava em decadência, não possuíam empregados e tinham um sistema de produção ultrapassado. Após o fim da escravidão, a monocultura, como a da cana-de-açúcar, entrou em queda vertiginosa. A família de Tonho estava estagnada. Enquanto isso, os rivais estavam em expansão, prósperos e bem-vestidos.

Tu nasceu vivo ou morto?
Vinte anos e uma vida não-vivida. Antonio, o filho do meio da família, era quieto e resignado, possuidor de um semblante sofrido. Por fora parecia tão seco quanto o clima onde vivia. Porém mantia no coração grande bem-querer pelo seu irmão caçula: o menino batizado de Pacu pelos circenses. Tonho não cumpriu o seu dever com gosto, como os outros. Ele não entendia a tradição, não concordava. Porém obedecera a seu pai. Após o ato feito, o rapaz percebeu que seus dias estavam contados, a faixa preta em seu braço era a prova disso. Pouco tempo teria para viver, e isso, aliás, nunca tinha acontecido com ele.
Tonho, então, sentiu que precisava viver antes de morrer. Nessa descoberta, Pacu teve um papel importante. O menino falava incorretamente, não sabia ler, mas tinha a mente colorida. Por ter a sabedoria de uma criança, não entendia o porquê das mortes, não queria perder seu irmão por um motivo tolo. Mesmo sendo o mais jovem da história, Pacu percebera que tanto os bois rodavam em torno da moenda da cana-de-açúcar sem nunca sair do lugar, quanto a família estava presa a um ciclo da tradição que não os levara a nada. Muitas vezes Pacu incentivou o irmão a fugir. Nesse momento nota-se que a honra da família era mais importante que a vida de um de seus integrantes, pois Tonho voltou.
A arte aparece no filme como um elemento libertador. Dois artistas circenses que rodavam a região fizeram com que os moços tivessem uma nova perspectiva de vida, sem tanta dureza quanto antes. Percebe-se que os artistas tinham um vocabulário correto e a cabeça aberta, contra a tradição das lutas entre as famílias. Clara, a morena que voava e cuspia fogo, iluminou o coração de Tonho, fazendo com que ele conhecesse o amor libertador. Ela também deu a Pacu um livro, que fez com que o menino sonhasse, criasse e sentisse emoções. Ao ver as imagens, ele pensava em histórias distintas, pois não sabia ler. O pai, figura rígida, tirara do menino o livro, pois vira que este ria sem parar, e para o pai, rir não era permitido. Todos deveriam estar sempre em luto, pelos que se foram e por aqueles que ainda morreriam. O pai falava alto, para mostrar autoridade e tinha um discurso permeado por ódio e vingança.
Pacu dizia que queria ser um peixe. “No mar todo mundo é feliz”, idealizava. E ao morrer no lugar de Tonho, o menino quebrou o ciclo que tanto repudiara. O véu caiu quando a mãe e o pai perceberam que não tinham mais nada, nem terra, nem família, apenas um vazio seco nascera há décadas e estava profundo. O irmão, que deveria ter morrido, foi então a encontro do mar. E o mar que povoou os pensamentos anunciou que março poderia ser diferente...
Site oficial: http://www.abrildespedacado.com.br/

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Apagaram tudo, pintaram tudo de bege.


O fim do Fala! Na Parede.
Nascimento: 26 de maio.
Morte: 30 de junho.
Vivia atrás do quiosque.

terça-feira, 1 de julho de 2008

três kombis e um curral

Giving hope to children in Brazil.
Canaan Land Ministries

e o número de uma conta, um endereço, um telefone.
Era essa a inscrição no cartãozinho que a mulher de moletom peludinho, que falava com um sotaque misturado e tinha um olho cheio de uma fé em desuso nos dias de hoje nos entregou.
Ela e sua equipe cuidam dos machucados dos joelhos e dos corações daquelas crianças, e querem que tudo seja como numa família. Chama-se Viktoria Fulop, ou simplesmente Vitória, nasceu na Hungria e é vice-presidente do Instituto Canaã, que fica em Entre Rios. "É bom quando eles saem daqui e lembram da gente, alguns ligam quando casam e outros trazem os filhos para conhecer a fazenda e dizem com orgulho: foi aqui que eu cresci", conta.
Mariane, Luana, Paulo, Luquinha, Ewerton. Todos juntos, numa coisa só.
Vai saber quantas feridas estão ali, atrás dos sorrisos e dos abraços sem fim que eles nos dão?
E é tão bonito ver pessoas como os apoiadores dessa ONG, que se dedicam um tanto, para dar esperança às crianças do Brasil, as que não têm o colinho da mãe (embora nem sempre com os melhores métodos, mas ao menos com atitudes).
O irônico ( ou ridículo?) é que enquanto alguns vêm de longe para atos desse gênero, outros tantos jovens brasileiros não lembram que são latino-americanos, filhos de uma nação desigual e se vão em intercâmbios (não)culturais, para passear e se encher de coisas inúteis, ou ainda para trabalhar em demasia em busca de mais dinheiro para mais aquisições que vão entupi-los de coisas que não precisam. Sem desejos maiores que curtir, sem preocupações maiores que consumir. Não posso afirmar o sentido da vida, mas há de ser mais do que acumular. É preciso dividir, fazer sorrir. Sim, há de ser.
Tem que ser.



ps: O Instituto Canaã é uma espécie de Casa Lar, que cuida de crianças órfãs ou afastadas dos familiares. Existe há mais de trinta anos e aceita voluntários.
Texto e foto: Scheyla Horst.
Visita em 01 de julho de 2008.