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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pavê

Ah... Melhor não ler se ainda não viu e quer ver.


O que fazem as pessoas em busca da tomada de território? Até onde vão os homens para firmar seu espaço na terra, e, conseqüentemente no mundo? A história do homem é marcada por lutas e sangue, em torno do estabelecimento. Luta por algo que possa ser chamado de “meu”.
No filme Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles, inspirado no livro homônimo do albanês Ismail Kadaré, o sertão brasileiro torna-se palco de uma disputa por terras, que ocasiona a busca pela vida. O drama não é imóvel, visto que antigamente histórias como a ilustrada eram comuns e poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. As lutas entre as famílias eram cobradas por sangue. Como numa guerra, existiam regras pré-estabelecidas, que não deviam ser desrespeitadas. Sérgio Machado, em seu livro Lutas de Famílias no Brasil, comenta sobre a organização dessas disputas. “Lutar pela família é lutar pela própria sobrevivência. Fugir disto seria infringir a regra, ir de encontro ao costume, ameaçar a própria existência e o equilíbrio social". A partir desse trecho, percebe-se que os desentendimentos tinham um caráter superior, e abrangiam a honra e conseqüente existência das famílias em seus lugares. A tradição amarrava as atitudes e a não-continuidade dessa era impossível.
No filme, a luta se dá entre duas famílias. Uma estava em decadência, não possuíam empregados e tinham um sistema de produção ultrapassado. Após o fim da escravidão, a monocultura, como a da cana-de-açúcar, entrou em queda vertiginosa. A família de Tonho estava estagnada. Enquanto isso, os rivais estavam em expansão, prósperos e bem-vestidos.

Tu nasceu vivo ou morto?
Vinte anos e uma vida não-vivida. Antonio, o filho do meio da família, era quieto e resignado, possuidor de um semblante sofrido. Por fora parecia tão seco quanto o clima onde vivia. Porém mantia no coração grande bem-querer pelo seu irmão caçula: o menino batizado de Pacu pelos circenses. Tonho não cumpriu o seu dever com gosto, como os outros. Ele não entendia a tradição, não concordava. Porém obedecera a seu pai. Após o ato feito, o rapaz percebeu que seus dias estavam contados, a faixa preta em seu braço era a prova disso. Pouco tempo teria para viver, e isso, aliás, nunca tinha acontecido com ele.
Tonho, então, sentiu que precisava viver antes de morrer. Nessa descoberta, Pacu teve um papel importante. O menino falava incorretamente, não sabia ler, mas tinha a mente colorida. Por ter a sabedoria de uma criança, não entendia o porquê das mortes, não queria perder seu irmão por um motivo tolo. Mesmo sendo o mais jovem da história, Pacu percebera que tanto os bois rodavam em torno da moenda da cana-de-açúcar sem nunca sair do lugar, quanto a família estava presa a um ciclo da tradição que não os levara a nada. Muitas vezes Pacu incentivou o irmão a fugir. Nesse momento nota-se que a honra da família era mais importante que a vida de um de seus integrantes, pois Tonho voltou.
A arte aparece no filme como um elemento libertador. Dois artistas circenses que rodavam a região fizeram com que os moços tivessem uma nova perspectiva de vida, sem tanta dureza quanto antes. Percebe-se que os artistas tinham um vocabulário correto e a cabeça aberta, contra a tradição das lutas entre as famílias. Clara, a morena que voava e cuspia fogo, iluminou o coração de Tonho, fazendo com que ele conhecesse o amor libertador. Ela também deu a Pacu um livro, que fez com que o menino sonhasse, criasse e sentisse emoções. Ao ver as imagens, ele pensava em histórias distintas, pois não sabia ler. O pai, figura rígida, tirara do menino o livro, pois vira que este ria sem parar, e para o pai, rir não era permitido. Todos deveriam estar sempre em luto, pelos que se foram e por aqueles que ainda morreriam. O pai falava alto, para mostrar autoridade e tinha um discurso permeado por ódio e vingança.
Pacu dizia que queria ser um peixe. “No mar todo mundo é feliz”, idealizava. E ao morrer no lugar de Tonho, o menino quebrou o ciclo que tanto repudiara. O véu caiu quando a mãe e o pai perceberam que não tinham mais nada, nem terra, nem família, apenas um vazio seco nascera há décadas e estava profundo. O irmão, que deveria ter morrido, foi então a encontro do mar. E o mar que povoou os pensamentos anunciou que março poderia ser diferente...
Site oficial: http://www.abrildespedacado.com.br/

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