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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ele entende de luzes

José Sovrani é uma pessoa que sorri com os olhos. Entusiasmado ao falar das peripécias realizadas no momento de enfeitar a sua casa para o Natal, constrange os mais céticos em relação à importância e repercussão das pequenas atitudes. 

Para ele, todo ato bom colabora para que a vida seja melhor. Tanto que, quando questionado sobre o que não gosta, diz: “Que não me cumprimentem quando eu digo ‘bom dia’. É como se eu estivesse segurando um balão que fosse esvaziado; acaba com a minha motivação”. 

Se Zezinho, como é conhecido, pudesse pedir um presente de Natal coletivo, seria que a "cidade fosse toda iluminada".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Valdelira não para


Valdelira diz que acorda bem cedo toda manhã e, antes de colocar os pés no chão, fica durante alguns minutos analisando se existe alguma dor nova no pedaço... E nada. 

Aí desiste e vai direto para o posto de saúde, para aplicação da insulina. É só isso o que ela faz na unidade de saúde. Com o resto do corpo está tudo certo, garante.

Ela conta que nos encontros do grupo de idosas da paróquia é um queixume danado. Todas as amigas reclamam de dor aqui ou acolá. Valdelira queria participar destes papos com propriedade. Mas não pode, porque não tem no que colocar a culpa. 

Aos 81 anos, ela já passou da média da expectativa de vida do brasileiro, que é de 74. Confessa que nem pensa em quantos anos quer viver. Talvez o suficiente para ser contemplada na mega-sena.

De segunda a sexta vai até a lotérica perto do terminal e faz o jogo. “Às vezes meu marido reclama, querendo saber em que lugar eu vou toda manhã!”.  Até hoje, não ganhou nada. Mas sempre há uma chance e vai que...

Antes de voltar para o bairro, passa na capela municipal e reza pelos mortos.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

João e o Pé de Flores


O homem estava sentado no calçadão da rua Getúlio Vargas ao lado do seu saco-de-estopa-companheiro. O que havia naquela sacola? Eu quis saber quais eram os sonhos mágicos que ele carregava.

E talvez pela curiosidade, passei a vê-lo com frequência nas esquinas da vida rotineira.

Tanto que no outro dia, este mesmo homem estava sentado numa mureta da avenida Moacyr Julio Silvestri. Olhava o movimento incompreensível da hora em que terminam os almoços. Em pensar que ele ainda nem tinha comido naquela quinta. 

Em um sábado deste ano, o homem permanecia parado na rua Saldanha Marinho. Por algum motivo qualquer eu lhe ofereci um jornal-de-enrolar-peixe, e ele retribuiu rapidamente com algumas pétalas vermelhas amassadas. Sem palavras. Como se estivesse óbvio que demonstrar pura gratidão fosse uma atitude comum.

Uma dezena de tardes depois disso, eu o flagrei num cruzamento entre as ruas Capitão Rocha e Paraná. Estando certo de que ninguém o via, furtava flores de um quintal qualquer. Então eu descobri parte do que ele escondia no saco de estopa. Então ele passou a ser ainda mais misterioso. E assim continua.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Robertinho e as coisas que são dele



A primeira gaveta do armário marrom de Robertinho é repleta de camisetas de times de futebol. Ele tem exemplares de todas as equipes, sejam elas notórias, pequenas, nacionais ou estrangeiras. Mesmo com tantas opções para vestir, garante que é corinthiano de coração e anda rindo à toa pela conquista do campeonato brasileiro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Necessidade de ser legitimado

O “Sangue Latino” é um dos meus programas de TV favoritos. Recentemente, Eric Nepomuceno entrevistou o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, que considera a arte cinematográfica o seu combustível para viver.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sorrisos para mudar as cidades

"Una sonrisa significa mucho. Enriquece a quien la recibe; sin empobrecer a quien la ofrece. Dura un segundo pero su recuerdo, a veces, nunca se borra"
Esta é a frase-resumo do projeto "Cien Sonrisas", que descobri nas ruas de Montevidéu no mês passado. A proposta? A mais simples possível: distribuir sorrisos [do tipo ":)"] pelos muros das cidades. O objetivo? Contagiar as pessoas do singelo movimento de mover de lábios, uma reação espontânea e positiva entre tanto barulho, entre tanta pressa, entre tanto cinza.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Como ter um blog de sucesso


"Escreva textos curtos, disse o professor do curso sobre 'como usar um blog para sua empresa'. Atualize com frequência. Seja atrativo. Use imagens e vídeos para contribuir. O internauta gosta". Ah, sempre perco o foco ao ouvir a palavra internauta. Começo a pensar numa aparência inusitada de ET, com uma cabeça grande acinzentada, escoliose longa e eletricidade estática acumulada. "Tenha foco e relevância, ressalta o instrutor. Se você falar sobre todos os assuntos, não vai agradar a ninguém. Além disso, não escreva por escrever". Penso que o meu blog é um sucesso. Só que não. Temo pela visibilidade da minha empresa que sequer existe. Entro em falência. Silencio e perco todos os clientes para a concorrência. Nada sobra. Só um retalho.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vozes abafadas


No dia em que conversei com a Eliane Brum em Guarapuava, ela me disse que pagou com o dinheiro da sua poupança a viagem a Belém do Pará, porque precisava dar visibilidade às vozes que não estavam sendo ouvidas a respeito da construção da usina de Belo Monte. Dessa maneira, não considera que tomou "partido" de algum lado, apenas cumpriu a missão de repórter, de mostrar o maior número de versões possíveis de um mesmo fato.  

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Eu tô ficando velha, eu tô ficando louca

Comia tranquilamente o cheetos do pacote alaranjado quando fiquei chocada - sim, acredite, às vezes ainda consigo ficar decepcionada com os tais dias de hoje.

domingo, 5 de agosto de 2012

Procura-se: ferreiros

De tanto ver a brasa dar o alaranjado intenso ao ferro, lembrando a cor do Sol, e através de um martelo ou de uma marreta fazer o pedaço de aço em cima da bigorna ganhar a forma que imaginara, José Rogal, 73 anos, pegou amor à profissão...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O sonho de um casal

Questionados sobre o sonho da vida, o casal respondeu sem pensar duas vezes: "uma casa com água saindo da torneira e luz brilhando na lâmpada". Não há nada que eles queiram mais. Em pleno século 21, Neuci, 42, Joanir, 57, e os quatro filhos possuem uma rotina bem comum de ser vivida pelos idos de 1940.

domingo, 17 de junho de 2012

Não existe amor em Guarapuava

É tão interessante ver atitudes contra a mesmice em Guarapuava - talvez por serem raras. Há alguns meses, tenho percebido as mesmas frases em diferentes muros, seguindo a ideia dos grafites que ilustram o vídeo da canção Não Existe Amor em SP, do Criolo. Muros "onde os grafites gritam".

sábado, 26 de maio de 2012

Achados antigos

Eu escrevi isso em agosto de 2008 e encontrei aqui nos rascunhos do blog. É provável que o eu que posta o texto não seja o eu que escreveu. É engraçado... (clique em mais informações).

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Quatro quadras

Sem os óculos, preferi andar olhando mais para o chão, diminuindo os riscos de não identificar algum conhecido ou não enxergar o que deveria ser visto.

domingo, 22 de abril de 2012

Preferências

João, que tem cílios parecidos com os meus, está com quase três anos e deu de falar bastante sobre os seus gostos. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

Madrugada

Assim como o poeta do Pantanal, ela passou anos se procurando em lugares nenhuns, até que não se achou. Agora é cedo e a moça busca equivocadamente nos arquivos antigos do disco rígido o exato momento em que tudo desandou de vez. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Coisas insignificantes

No mesmo dia em que a caneta estourou na mão, o canto da página da tarefa rasgou no momento de destacá-la do caderno. Acabou a pilha do controle do portão eletrônico e o ponteiro do combustível correu sorrateiramente para perto da reserva...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Dia a dia

As imagens e o texto escrito pelo fotógrafo Antanas Sutkus para a exposição ‘Um olhar livre’, que está no Museu Oscar Niemeyer, foram uma das coisas bonitas que vi nos últimos dias. Tanto é que decidi publicar aqui alguns trechos. A mostra fica lá até o início de maio. Confira...

Vulto

Na eterna sina de correr para o que se é, a gente segue indo para lá, sem saber ao certo onde isso fica. No caminho, aquela frase do filme vai martelando. “O rato come queijo, o gato bebe leite e eu sou palhaço”. Simples, não é? Quem dera. O bom é que o poeta garantiu que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Para Mari.
Foto: Divulgação.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sobre paredes

Assumo: o tempo realmente tem passado. Percebo isso pela parede do meu quarto. Ela ‘nasceu’ cor de pêssego, aí foi pintada de verde clarinho e agora é branca, mas fica fácil constatar que existiram outras camadas não tão alvas, de anos não tão antigos. São dezenas de sinais de buracos, localizados em diversos locais onde tantas estantes estiveram. Na vida, a gente recorre várias vezes ao uso de massa acrílica, embora os consertos nos desconcertem.