Instagram

domingo, 25 de setembro de 2011

Luas cheias

Para Walter Carvalho, a capacidade de contemplação do homem está se exaurindo. Não existe mais tempo para lero lero com o vizinho. "Li em algum lugar que se você vive 60 anos, não terá visto mais de 20 luas cheias". Ele, que afirmou ter se tornado fotógrafo porque não conseguiu ser pintor, quer viver em um local onde seja possível perceber a transformação da natureza, "a ressurreição da flora depois da chuva". Em sua entrevista para a série Sangue Latino, disse que sem utopia não há evidência de futuro. "O artista não tem cura e tem de estar afinado com a ideia de que a arte foi feita para mudar o mundo. É preciso que se diga isso sempre". O cineasta de Terra Estrangeira e Abril Despedaçado atualmente escuta Raul Seixas.

sábado, 24 de setembro de 2011

Erro permanente

Recentemente, vi algumas imagens que incomodaram. Meninos e meninas africanos extraindo cobre do lixo eletrônico 'importado' da Europa. Em Gana, segundo o fotógrafo Pieter Hugo, os moradores da favela próxima ao lixão chamam o local de Sodoma e Gomorra. Jovens são envenenados diariamente pelos descartes de placas-mãe, monitores e discos rígidos. O título da série de fotografias de Hugo é Erro Permanente. Confira: http://www.pieterhugo.com/


domingo, 18 de setembro de 2011

Não é mágica, é ciência

“O segredo é não colocar massa em cima da forminha e deixar só metade dela no óleo bem quente. Se afundar, não vai desgrudar. Se fizer como estou falando, depois de um tempo a massa abre feito uma flor. O bolinho fica sequinho, crocante e não engorda, eu garanto. Então você recheia com o que quiser. Nesse caso, estou colocando açúcar com granulado e leite condensado. Se a sogra estiver em casa, dá para rechear com concreto e vidro – é brincadeira, só para descontrair. Na hora de preparar a receita, não é para colocar fermento, só as coisas que eu estou dizendo, ou vai dar errado. Caso precise, aqui (mostra um papel) tem meu celular. Pode ligar qualquer hora do dia e até a cobrar”. 
Alexsandro, de 39 anos, ama ser vendedor de rua. Na área desde menino, fala alto, se destaca no calçadão, faz piadas sem dificuldades e interage com o público. “Vou morrer trabalhando nisso. Aprendi com meu pai, que aprendeu com o pai dele. Espero ainda ter um filho para ensinar”. Em menos de 15 minutos, repetiu a receita da sua especialidade nove vezes. Ele distribui o bolinho gratuitamente aos curiosos que param, pois tem o objetivo de vender a forminha “de fabricação própria e exclusiva” ao valor de R$5. O nome da obra é Artesanato Delícia, “artesanato porque sou eu que faço e delícia porque o bolinho fica delicioso”, explica. No primeiro dia em Guarapuava, comercializou 120 unidades do instrumento que parece mágico. Depois uma semana na cidade, zarpa para outra. “Minha vida vivo viajando. Eu e meu pai dormimos no carro mesmo. Conheço todo canto desse país. Nunca trabalhei de empregado e espero nunca precisar”.




sábado, 10 de setembro de 2011

Veja bem

O mesmo menino que estava vendendo algodão-doce no parque fazia malabarismos com três limões no meio tempo em que o semáforo da avenida brilhava em vermelho. Não sei se era o mesmo menino. Eram os mesmos olhos, sim, disso eu lembro bem. Com medo – talvez nem sempre deles, mas da nossa reação – raramente miramos aqueles olhos. Olhos que garantimos que são diferentes dos das crianças que brincam no parque enquanto comem algodão-doce. Veja bem.


domingo, 4 de setembro de 2011

Ele tem nome

Fazia um bom tempo que eu queria saber. Sempre apressada, passava ao lado do pedinte e seguia tricotando possíveis histórias. O que levou o homem a ficar todo santo dia encostado no mesmo poste, com as mesmas mãos em forma de concha? Para muitos, ele se tornou uma figura quase transparente. Que existe, todos sabem, mas poucos se importam, desde que não atrapalhe o percurso do banco ao carro, da loja à outra loja. Em vez de passar, naquele dia eu parei.