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sábado, 31 de maio de 2008

surpresas e suspiros

Trechos entrevistas Paulo Leminski (1944 - 1989)

"Ser poeta aos dezessete anos é fácil, quero ver alguém continuar acreditando em poesia aos 22 anos, aos 25 anos, aos 28 anos, aos 35 anos, aos 40 anos, aos 45 anos, aos 50 anos... encontrar um poeta como Drummond ou como o admirável Mário Quintana.

Um dia desses quero ser
um grande poeta inglês do século passado
dizer ó céu, ó mar,
ó clã, ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino

Eu acho que a poesia é um inutensílio, a única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa, porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que você querer, por exemplo, que um gol do Zico tenha um porquê além da alegria da multidão. É a mesma coisa que querer, por exemplo, que a alegria da amizade, do afeto, tenha um porquê. A poesia não precisa ter um porquê. Pra quê porquê?

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois

de mim de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


... É através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam que a sociedade respira.
Eu tenho uma teoria de que precisa existir poesia tanto no emissor quanto no receptor. Você tem que ser tão poeta para entender um poema quanto para faze-lo. Porque só poetas são capazes de entender poesia.



Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo
duas três
quatro
cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

A poesia é uma espécie de um heroísmo. Você continuar acreditando, ao longo dos anos, nessa coisa inútil que é a pura beleza da linguagem, que é a poesia, é um heroísmo, é quase uma modalidade de santidade."

gardênias e hortênsias
não façam nada
que me lembre que a este mundo
eu pertença
deixem-me pensar
que tudo não passa de uma terrível
coincidência

sábado, 24 de maio de 2008

Mais delas, elas estão em todo lugar!

João escolheu um sorvete, porque fazia dois meses que não via o dolézero, e sentia uma saudade que doía mais depois que ele chutava bola com os amigos.
.

Robert pescou quatro peixes na poça da rua de baixo, e um tubarão!


Josiel foi picado por uma aranha quando tinha 4 anos. Ficou roxo e doído por doze dias!
Mas agora ele pula mais alto que todas as outras crianças da escola.



Fotos minhas.
Estas fotos não são públicas. Todos os direitos reservados.

domingo, 11 de maio de 2008

O sufoco

"Tira isso daí para eu sentar, porque mala não tem bunda", exalta-se a senhora de uns setenta e tantos anos com um menino loiro queimado do Sol que sentara junto com suas bagagens, ao mesmo tempo em que mostra a identidade para o cobrador com afinco, a fim de comprovar que não deveria pagar a passagem. Com essa cena corriqueira, começou a viagem. Onze reais e quarenta e cinco centavos. "Quer pagar esse preço e ainda deseja mordomia?" Quatro horas e quinze minutos para percorrer cento e setenta e alguns quilômetros. Sol tímido e vento cortante. Ao mesmo tempo, um ar abafado. Malas, pés, joelhos, crianças, sacolas, suor. Tudo junto, sensação de que não cabe mais ninguém. Parada solicitada, dois descem, quatro sobem. Tá, me enganei, cabia mais alguém. Silêncio. Parada solicitada. Um desce, dois sobem. Novamente estava errada, sempre cabe mais um, sempre. "A senhora vai até Imbituva? Não, até um trecho da estrada perto de Guamiranga". Do outro lado: "Que horror, como está cheio. Quase nunca é tão cheio assim". O ônibus pára no acostamento, mais cinco entram. Ninguém desce. Aperta mais um pouquinho que dá. Sempre dá.
Meu pequeno quadrado de trinta centímetros² fora reduzido durante os primeiros vinte minutos de viagem. E agora eu ocupava um retângulo estreito, sem saída. O homem do lado esquerdo, que tinha uma calça jeans dos anos 80, quis fazer graça, "já pensou se alguém vomita no ônibus?" - mal de brasileiro, sempre faz piada, debocha de sua própria situação, seria por um humor refinado, ou porque quer deixar a vida mais fácil? - Enfim, de qualquer forma, ninguém riu.
Eu não consegui contar quantos passageiros estavam ali, mas olha, definitivamente era muito mais do que o máximo permitido. Do que o máximo aceitável. Entre eles, Telma Roesler permanecia inquieta. Embora estivesse sentada, e num lugar privilegiado (ao lado da janela), a mulher do Mato Grosso do Sul não conseguia esconder a insatisfação com o meio de transporte "escolhido na marra", visto que não tinha uma linha 'convencional' para Imbituva no período da manhã. "Teria só às 17h10min, e eu não posso ficar até esse horário sentada na rodoviária esperando. Eu acho que isso é uma falta de respeito com o usuário", indigna-se. "Ah, e eles não queriam me deixar entrar com as malas! De certo eu viria do MS sem nada!", ironiza. Ela continuou contando que não recebeu as informações necessárias sobre como seria a viagem, e até se assustou quando lhe disseram que a passagem custaria apenas R$4. "Estou vendo isso aqui regredir, e isso me deixa muito triste, estou estarrecida", conclui, já com a mão direita na cabeça, e os cabelos esvoaçados.
Mas tantos outros ali não reclamam. Até acreditam que merecem sofrer um pouco mais. Com os corpos envelhecidos e o espírito acomodado e esperançoso, eles apenas desejam que o ônibus chegue logo lá do lado de lá.
E a menininha dos olhos verdes sorria como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira que ela ainda não conhecia.


Textos e fotos: Scheyla Horst.
Viagem: 10 de maio de 2008.
Saída: 9h45min - Metropolitano Princesa dos Campos.
Linha: PG - Imbituva - Guamiranga - Prudentópolis - Guarapuava.

domingo, 4 de maio de 2008

Eu tenho medo de termômetro

Todo aquele mundo que existia no meu quintal... Brincando que a rede verde, na garagem, era meu barco, e a vassoura, o remo. Se fechasse os olhos, já sentia as ondas, o gostinho salgado do mar e via as estrelas de tão perto, mas tão perto, que se quisesse, poderia guarda-las numa sacola.
E a brisa das tardes de verão são inesquecíveis, ficavam mais refrescantes quando eu descia a rua de pedras soltas com a bicicleta de dezoito marchas do meu irmão. Se brecasse com o freio traseiro, fazia uma derrapagem barulhenta. Emocionante. Quem conseguisse a maior vencia.
Frio na barriga. Incerta era a corrida até o muro, e se estivessem guardando caixão? Se bem que eu sempre era café com leite.
Na grama onde eu andava descalça, de alma limpa, coração aberto; sempre fazia o velório das minhocas que morriam de insolação, e as cruzes de palito de dente demarcavam as covas. Estranho?
Às vezes, descuidada, ainda escuto as gargalhadas aconchegantes da vizinha, que tinha um buda em cima da geladeira e me enchia de balas de amendoim.
Ou quando ficava sem respirar atrás do poste perto do bar do Zezinho, e trinta e um meu.
No matagal da frente de casa, onde caçava os vagalumes com potes de conserva, tinha uma árvore que dançava quando ventava, a maior de todas elas, sempre pensei que ela queria sair correndo dali. 

sexta-feira, 2 de maio de 2008