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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Rei, capitão, soldado, ladrão

Com nuvem carregada de cinza ou em dia de brilho solar; abraço, pulo, bola, choro, riso, abraço. Ainda hoje a mesma canção de outrora no boleio, 'com quem você pretende se casar?' Na vila à beira da BR 277, eles vivem como quem sabe que é melhor ser alegre que triste. Como quem não tem outro jeito. Crescem de uma maneira ou de outra e, aos 13, não cabem muito bem no lugarejo.


Inesperado

Cansaço, mormaço. 
Menino de canelas finas, uns dez anos, havaianas quase arrebentando e cicatriz perto do olho esquerdo. Sem nada nos bolsos do calção jeans, parado na calçada para desfrutar as últimas unidades de um pacote de bolacha recheada sabor chocolate da marca mais barata.
- Tia, tem algum dinheiro?
- Não, nada - respondo sem ânimo e continuo.
Ele também atravessa a rua e vem em minha direção.
- Pode me dizer as horas?
- 18h23.
Continua andando por perto, comendo primeiro o recheio e bem devagar.
- Eu gastei meu único real com a bolacha. Você não tem nem dez centavos?
- Já falei que estou lisa. Acha que estou mentindo?
- Claro que não, eu acredito na senhora - responde sem convicção, agora já ao meu lado. Ele insiste, para sensibilizar: É que eu deveria ter comprado café, mas estava muito caro...
- E você quer que eu crie um dinheiro para você?
- Só se você fosse uma mágica, mas eu sei que essas coisas são mentira, tudo ilusão.
- Será?
- Só as coisas de Deus são verdadeiras - silêncio, clima abafado - A senhora já é bonita!
- Obrigada.
- Casada?
- Quase - minto - E você?
- Não, né! Mas eu dobro aqui, obrigado.
E vai embora para sua casa que fica perto do Parteka.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

à margem, as melhores

As pessoas mais humanas que encontro debaixo das nuvens quase nunca estão na organização de eventos, chefia de escritórios ou ocupando cargos de relevância nas empresas, no Estado, na Igreja. Como o João e a Cleuza, que conheci meio sem querer nos fundos do quintal da festa. Se calados, ambos tendem ao árido, porém, quando conversam, lembram o cheiro de chuva em grama recém-cortada. Eles saíram de casa após o almoço, para quiçá conseguir umas latinhas na tarde do domingo de céu azul. Não deu muito certo, outros vieram antes, mas eles não se abalaram e aproveitaram para contar experiências outras,  como sobre a rotina de trabalho de juntar recicláveis e da necessidade de ir à colheita para conseguir um extra em tempos como estes. Embora juntos há uns dois anos, num puxado construído pelo próprio João, "em um lugar onde tomara ninguém vá reivindicar", o casal não tem foto alguma para enfeitar os cantos. Fiz, então, o favor, de boa vontade e de graça, mas tão logo a Cleuza sorriu, olhou para mim com ternura e avisou que me trará umas batatinhas diretamente do campo em troca do retrato.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Olhai e vede

A beleza não é luxo, é uma necessidade daqueles que são feitos da mesma farinha. Farinha, ovos, fermento, assa um tiquinho. Então surge um corpo pequeno, pensante, cheio de querer ser descobridor de coisas. Nasce sol, põe-se sol, não importa o tanto de dinheiro na conta, todos têm apenas o cotidiano, como a dona Evanir. Seu dia a dia raramente é algo fora do comum, quase parece regra ser ordinário. Mas, no fim, todos entendem destas coisas, e ela pega umas flores de plástico para colocar em cima do armário da cozinha. A beleza não é luxo. É necessidade.
E numa prece, mesmo sem saber se diz o que diz, a mulher recita os versos de Adélia:
'Louvado sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.
Uma vez, quando eu era menina, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento'.