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sábado, 30 de maio de 2009

Pensamento derradeiro

Neste instante tem um moço de olhos escuros na praça de pedágio, desejando boa viagem a quem quer que seja. Ansiando que o relógio seja generoso e encerre o expediente o quanto antes. Por ele acabou de passar um caminhoneiro calvo, rumo a um destino incerto, mas distante. Chegará a um restaurante onde uma mulher de mãos delicadas lhe servirá um prato quente de sopa de legumes. Prato que será lavado por outra garota, ainda sonhadora, na cozinha dos fundos. Esta tem esperanças que estão além-do-vale, já a outra nem lembra qual é o dia da semana. Um pouco longe dali, um menino de camiseta pólo listrada e bochechas rosadas brinca num pneu abandonado que encontrou. Ele imagina como era o primeiro dono desse brinquedo. Enquanto isso, na calçada, vão e voltam outros elementos sociais em construção, paredes sem tetos, assim como a casa que abriga o pneu amarrado na corda, o menino risonho, o fio que dá sentido ao universo. Pense.

Foto minha. Blumenau-SC.

terça-feira, 26 de maio de 2009

seja o que flor

Mas deixa que seja e quando for vai ser de um jeito melhor. O dia respira ofegante, ou suspira aos prantos, mas chega a um ponto em que tanto faz. “Tente esquecê do que é triste, amargo, incolor. Enxuga essa lágrima, menina. Não vale a pena. O mundo é assim mesmo, um furdunço, não vai mudá se você chorá. E nem se você corrê. Já foi dito que só tende a piorá. Se a vida é uma espera, já sabemo que só temo que esperá”. E se me permitir, eu te digo: Aquieta o peito, a culpa dessas discrepâncias não é tua, ou talvez até seja, mas só um tiquinho. A verdade é que é um pouco de cada ser vivente da terra. Mas só uns alguns sentem como você sente. Sempre foi assim. E sempre será.


Foto minha. Guarapuava-PR.

domingo, 17 de maio de 2009

Coitada da Dona Farsa

Era uma farsa daquelas que não se vê mais por aí. Elegante, simpática, afável, competente e muito querida. Há tempos vinha se apresentando como uma possibilidade, um porto seguro, e foi numa tarde bonita de um outono interminável que ela trouxe as malas marrons quadradas e arrumou as suas roupas antigas no armário do quarto dos fundos. Sempre disposta, foi ganhando importância na rotina daquelas vidas, ajudando a lavar os pratos, a estender os tapetes, a arrastar a mesa de mármore. Passados tantos dias, já não havia jeito de mandá-la embora, não só porque ganhara o coração dos anfitriões, mas também por ter um jeito meigo que não deixava ninguém conseguir encará-la com intenções perversas. A família estava completa, sentada ao redor da mesa de jantar: o pai, a mãe, os dois filhos, o cão e a farsa, (esta majestosamente na cadeira da ponta). Todos pareciam contentes e satisfeitos por possuírem vidas tão alegres e regradas. Bem sucedidos, estufavam o peito ao falar sobre projetos e metas, enquanto a dona visitante fixava seus olhos cor de geada nos lábios dos emissores de mensagens simbolicamente incoerentes. Refletia consigo mesma, nos momentos em que estava só, a elaborar os relatórios sobre a experiência. “Um trabalho que mata lentamente, feridas que não cicatrizam. Uma vida sem alarmes e sem surpresas. Uma casa tão linda e um jardim tão belo. Uma vida sem alarmes e sem surpresas”, escrevia.Sinceramente, ela queria logo a aposentadoria, pois a cada dia era maior a vontade de gritar, extrapolar tudo aquilo que tinha guardado no peito durante a estadia em mais uma das milhares de residências por onde já passou. Ter essa função não era moleza. Uma farsa atendendo quatro pessoas é um trabalho desumano, “leve-me embora daqui”, ela pedia em suas preces. Todas as noites.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Enquanto isso, por entre a cerca de madeiras assimétricas, o cachorro fugia.

Hoje, talvez só hoje, foi a cena que encucou. Na cabeça da mulher que lavava roupas num tanque sujo, e na minha muito mais. O momento lúdico antes do almoço, onde a brincadeira é um levar o outro num carrinho improvisado, através da poeira da rua esburacada, enfrentando os monstros e o dragão, além das barreiras do percurso, com risos e imaginação. (Sem hot weels, sem barbies, sem pokemóns). A simpatia deles era toda ao que tinham ao alcance das mãos.


Texto meu, foto minha. Morro Alto, Guarapuava-PR.