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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Durante a via casa-trabalho.

Para não variar, a manhã estava nublada. Na descida da Rua Marechal Deodoro, em baixo de um boné promocional, Seu Antonio mostrou os dentes com avidez, na forma de um sorriso familiar, e logo soltou um "bom dia!", daqueles que quase nos convencem de que realmente tudo vai ser muito bom. Pela sua presença, é certo que se tratava de uma segunda-feira, quando ele passa nas redondezas para recolher as sacolinhas de mercado com recicláveis, na frente das residências. Mais abaixo, no cruzamento com a Rua Dona Noca, uma Variant TL 1971, motor 1600, modelo bem-antigo-até-retrô, de cor cinza meio azulado, estava com uma carga de grandes bolas de coloridas de plástico (daquelas que a gente ganha em jogos de parques de diversão) numa rede acoplada no teto. A cena foi inusitada. Já na Praça da Bandeira, uma senhora de poucos quilos carregava uma mochila que parecia pesada, mas a mulher tinha o rosto sereno e estava contente. Logo ouvi o barulho do trem que cruza o vilarejo. Eita!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

espírito natalino...

Intrepidez talvez seja um adjetivo que caiba à definição do menino que agora usa camiseta vermelha de detalhe azul na gola. Isso porque ele não teme qualquer coisa e sempre observa as pessoas através do fundo-bem-fundo dos olhos, sem nem se importar com as consequências desse ato tão bravo. Gosta de sentir o medo translúcido nos rostos cansados dos adultos, que desviam a expressão para o lado quando se sentem desmascarados. Acha que não tem o que perder e nem se importa mais em ganhar alguma coisa. A última vez que recebeu um presente desses de fim de ano, foi um caminhãozinho de plástico seco e ruim, logo quebrou, antes da Páscoa. Sabia que quanto mais apelativo e emocionante conseguisse ser no momento de escrever a cartinha - claro, sem pedidos muito caros - mais chances teria de receber uma visita de um carro da prefeitura ou de voluntários. Esses caridosos sempre vinham com câmeras fotográficas ou filmadoras, para registrar. Bondade sem registro não vale nada na hora do relatório.
"E é porque eu amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade", Paulo Freire.

Fica aqui o meu desabafo de fim de ano.


Mais fotos desses desatinos: http://flickr.com/photos/scheylahorst