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domingo, 17 de maio de 2009

Coitada da Dona Farsa

Era uma farsa daquelas que não se vê mais por aí. Elegante, simpática, afável, competente e muito querida. Há tempos vinha se apresentando como uma possibilidade, um porto seguro, e foi numa tarde bonita de um outono interminável que ela trouxe as malas marrons quadradas e arrumou as suas roupas antigas no armário do quarto dos fundos. Sempre disposta, foi ganhando importância na rotina daquelas vidas, ajudando a lavar os pratos, a estender os tapetes, a arrastar a mesa de mármore. Passados tantos dias, já não havia jeito de mandá-la embora, não só porque ganhara o coração dos anfitriões, mas também por ter um jeito meigo que não deixava ninguém conseguir encará-la com intenções perversas. A família estava completa, sentada ao redor da mesa de jantar: o pai, a mãe, os dois filhos, o cão e a farsa, (esta majestosamente na cadeira da ponta). Todos pareciam contentes e satisfeitos por possuírem vidas tão alegres e regradas. Bem sucedidos, estufavam o peito ao falar sobre projetos e metas, enquanto a dona visitante fixava seus olhos cor de geada nos lábios dos emissores de mensagens simbolicamente incoerentes. Refletia consigo mesma, nos momentos em que estava só, a elaborar os relatórios sobre a experiência. “Um trabalho que mata lentamente, feridas que não cicatrizam. Uma vida sem alarmes e sem surpresas. Uma casa tão linda e um jardim tão belo. Uma vida sem alarmes e sem surpresas”, escrevia.Sinceramente, ela queria logo a aposentadoria, pois a cada dia era maior a vontade de gritar, extrapolar tudo aquilo que tinha guardado no peito durante a estadia em mais uma das milhares de residências por onde já passou. Ter essa função não era moleza. Uma farsa atendendo quatro pessoas é um trabalho desumano, “leve-me embora daqui”, ela pedia em suas preces. Todas as noites.

4 comentários:

  1. Mas ela sabe que nunca durará tanto tempo na vida das pessoas.


    =)

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  2. Curioso e bem bolado.
    Tô gostando bastante do blog!

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  3. Eu sou uamfarsa também. Ou uma fraude, como queira.
    Faz tempo que não passava por aqui. Decidiu alongar um pouco os textos? Não perdeu a mão. ;)
    Bjo!

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