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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ele faz cinema

O quarto já ganhara uma aparência amigável, depois fúnebre, agora neutra. Ali ele existia, pois naquele lugar pensava. Podia fazer o que fosse, mas não conseguia fugir do seu fim pensante, mesmo quando se perdia pensando em seu desejo de não mais pensar. Intrépido, procurava segurar com todas as escassas forças o momento, os sons, os aromas. Era quando sentia intimamente sua pele envelhecer, num desespero ritmado, e então percebia que se tratava de um instante de aventura ou como leu um dia: da compreensão da irreversibilidade do tempo. Estava só, deixando-se carregar o vento. Via o tempo atravessar o vilarejo e a cidade já não morava mais nele. Trouxe à lembrança sorrisos de Cecília, Lígia, Bárbara, Rita, Joana. Nunca é tarde, nunca é demais. Lembrou ter ouvido alguém famoso ter dito que viveu uma 'vida sem tempos mortos'. "Bobagem!". Tudo depende das significações dadas, por isso não acreditava em receitas ou dicas para uma boa caminhada. Por que considerar maus os tempos mortos? Cada pessoa é tão cada pessoa e agora ele estava preparado para levantar da cama amassada e representar seu papel. Depois dos pensamentos-só-seus de todo dia. Todo santo dia.

Ilustração: O beija-flor, de "Os Gêmeos".

2 comentários:

  1. Mais nove linhas que eu adorei ler... E certas frases dessas linhas vão ressoar na minha cabeça pelos próximos minutos.

    beijão

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  2. e ELA é linda demais!!!!!!!:*****

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