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domingo, 22 de novembro de 2009

anamnese

Não fez calor demais no dia em que a cidade sumiu. A manhã acordou opaca, como algo inédito. Os pássaros meio quietos de canções, o sol ardendo em si maior. A menina estava sentada no quintal de trás do lar tão doce, comendo um pêssego azedo, direto da árvore, carregando toda a chuva dentro dos seus olhos cor-de-mar. (A mesma água que inundou o que existia ao redor algum tempo depois). E ninguém um dia pensou, nem nos devaneios de fim, que esse dia chegaria, não tão cedo. Muitos casais não se despediram e outros nem puderam formar um par; um bocado de crianças não terminou as brincadeiras; uns velhos não conseguiram beber seus cafés-de-nostalgia. Hoje, falando assim, pode parecer invenção, mas foi num dia como o de hoje que a cidade desapareceu, sem rastros de outdoors e neons, sem redenção. Isso foi o que a mulher de pele já bastante usada contou, enquanto apertava a testa, num esforço de trazer novamente ao coração o que um dia acredita que viveu.

3 comentários:

  1. Adorei o sol ardendo em si maior!
    Assim como adorei o restante do texto também.

    beijos

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  2. eita scheyla, esse projeto experimental tá pirando sua cabeça, né? vê se acha logo mais uns três pra emendar depois que vc terminar, pq eu gostei demais desse texto.

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