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sexta-feira, 20 de março de 2009

garapa

Os meninos crescem alheios à nossa vontade, assim como nascem. Olho para eles e suas barrigas salientes, cobertos apenas por suas fraldas enroladas em sacos de arroz, pulando descalços no chão de terra rachada, rolando pelo piso e falando palavras que não sei onde aprendem. Sinto que logo eles vão entender que eu fiz o que pude. Hoje nós almoçamos, então não tem janta. É que não dá pra comprar de um tudo com cinquenta real. Aqui anoitece cedo e amanhece doído. Uma dor que se alojou e não sei mais onde mora, dizem que é fome, mas acho que é castigo. Já pedi a tudo que é santo que me mande um sinal, se for pra gente sofrer, que pelo menos poupem os meninos. A cada dia uma nova mancha branca nascendo nas suas peles encardidas e o leite não digo que tem todo dia, porque ta caro, mas a gente põe uma açúcar na água, mexemos e daí eles bebem.


Texto meu, baseado no documentário Garapa, de José Padilha.
Foto: Print Screen do documentário.

5 comentários:

  1. Sinto sua falta :(
    Por mais que não pareça...

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  2. Scheyla, seus textos têm uma delicadeza que encanta!

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  3. Eles me fazem pensar sobre muitas coisas. Gosto demais.

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  4. Amanhece doído...
    Nunca mais reclamarei ao amanhecer.

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  5. Ao mesmo tempo que me fez mal, seu texto me fez tão bem...
    Acho muito incrível sua capacidade de dar vida ao texto.
    =)

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