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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ninguém notou.

Era perto do meio dia e brilhava o sol, alto; muitas pessoas apressadas, todas agindo conforme o script de um dia normal. Eu estava andando cabisbaixa, pensando em várias coisas, aqui e acolá, nem lembro o que eram, se é que eram. Quando olhei para o lado, vi uma mulher segurando um menino, ela pediu dinheiro para comprar comida, eu balancei negativamente a cabeça, como uma resposta automática e segui. Porém, alguns passos adiante, parei. Começou a incomodar a minha atitude, feito um aperto que maltrata, ora, por que tratar as pessoas como se fossem formigas? Talvez se, ao invés de uma mãe e um filho, estivessem naquela calçada uma cadela com a sua cria, muitas pessoas parariam e exclamariam: "Oh, que dó, tão bonitinhos e abandonados no mundo!", quiçá até os levariam para casa. Mas não eram cachorros, eram humanos e, por isso, não receberam a atenção dos seus "semelhantes". Fiquei com ânsia por ter feito o que fiz: o que todo mundo sempre faz. Voltei e me sentei ao lado da mulher de cabelos escuros e olhos azuis. Ao me ver, ela abaixou a cabeça. Perguntei onde moravam, "no Xarquinho". Conversamos algum tempo, expliquei para ela que existem alguns locais onde é possível conseguir ajuda, até porque um dos direitos sociais, "previstos na constituição" é o de assistência aos desamparados. Ela me olhou curiosa e humildemente respondeu: "É que a gente não sabe muito dessas coisas, mas vou procurar". Seu filho, Rodrigo, se saracoteava no colo da mãe, e me disse que gosta de brincar, timidamente. Ele tem 7 anos e parece pequeno para a sua idade, cabelos lisos e escuros, pele morena, uma pintinha perto da boca, possui mais dois irmãos. Lindamara é separada, ganha uma pensão de 150 reais e diz que é humilhante ter que pedir dinheiro às pessoas, mas como está sem emprego, não sabia o que fazer. Na hora em que me levantei, disse para ela nunca deixar os seus filhos fora da escola, a mulher me garantiu que não vai permitir. Dei os únicos dois reais que eu tinha, ela segurou com suas duas mãos a minha e respondeu: "Scheyla, obrigada. Eu desejo toda a felicidade para você".
No resto do caminho para casa, não consegui ver beleza nas flores, nem no céu. Aqueles dois pares de olhos não saiam da minha cabeça e várias interrogações se substituíam sem parar. Mesmo com o que ela me desejou, a única coisa que consegui sentir foi tristeza. Pode ser que eu nunca mais veja Lindamara e Rodrigo, mas apenas a lembrança da existência deles já me pesa. E o que será daquele menino, e o que será?

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