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A saudade

As músicas tocavam na ordem aleatória e a tarde estava fria, embora com restos de sol que de quando em quando entravam pela janela e deixavam o quarto um pouco abafado. Exatamente quando li as últimas linhas do livro ("É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo"), Zeca Baleiro cantou "a saudade é um filme sem cor que o meu coração quer ver colorido".

Sobre fantasmas (ou quando ainda não se falava de ghosting)

“Martita não voltou a me chamar, nem me escreveu depois, nem soube dela. É claro que pode voltar a bater na minha porta no momento menos pensado, e muitas vezes fantasiei respostas vingativas. Por exemplo, dizer pra ela: “não, agora é tarde demais” e bater a porta na sua cara. Mas são só fantasias que, até bem pouco tempo atrás, eu juraria que era capaz de realizar, mas não, agora acabam de soar uns golpes na porta e estou completamente desconcertado. Passou muito tempo e eu já não sei se sou capaz de reconhecer o exato ‘toc-toc’ de Martita, acho que não deve ser ela, deve ser outra pessoa, outra confusão minha. 'Toc-toc’. Mas com Martita nunca se sabe e é obvio que eu não sei matar fantasmas.”  Mempo Giardinelli

Cuidado

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Eu e João fomos feitos para desentender. Por isso nossa relação alterna do afeto extremo à discordância imediata com a mesma facilidade que ele tem para quebrar coisas. Mas, se é domingo, e o céu está claro, estendo o antigo lençol azul com flores amarelas na grama, e tudo se ajeita. Os únicos sons disponíveis são o do vento por entre as folhagens do quintal e o da voz dele cantarolando músicas de composição própria. Não falamos nada um com o outro, só que ele me olha nos olhos e sorri, desatando os nós. Quando levanto e coloco-me num caminho qualquer perto da escada, ele me adverte com as mesmas palavras que usei horas antes: “cuidado, tia Schelya, é peligoso”. 

Conhecedora das flores

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Quem olha para os bordados de Lina logo pensa que não se trata de produção manual. As máquinas fazem coisas parecidas, sim. Em 1947, porém, enquanto o noivo servia o exército, ela pacienciosamente preparava o enxoval. Trabalhava na roça e levava os panos, fios e agulhas na bolsa. À noite, sob a luz de um lampião de querosene, criava flores. Nem preciso falar que não existiam sites com receitas e adquirir uma revista com dicas não era tarefa tão fácil. As cores, formas e tamanhos brotavam da sua própria imaginação. Poucos dos trabalhos daqueles dias resistiram ao persistente continuar do tempo. Alguns ela reaproveitou em outras propostas, como o belo bordado que fala em amor e foi colocado num quadro na cozinha. “Tenho vontade de ensinar o que sei, mas já não enxergo. Eu sempre brinco que minha cabeça manda, mas o corpo não quer obedecer mais”.

Terceira margem

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Por ter nascido órfã de sentido e capaz de sofrer daquela dor que circula entre a cabeça e o coração, tornou-se especialista na vastidão dos nadas, os quais gosta de abraçar especialmente junho. Só assim compreende o silêncio das folhas caindo [confessa que sempre olha para cenas que gostaria de tornar perenes]. Por ter nascido com poucos interesses e em dia ímpar, dispensa o acorrentar de querer-só-para-si, pois nada possui de verdadeiro além das intenções. “Para sobrar alguma coisa, melhor parar bem agora, ou a gente se empolga e dispensa o pensar”.

Um par

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“Eu não envelheci. Só lembro disso quando olho o espelho”, diz ele, aos 80, completando: “Há pessoas que nascem para parar e outras que são para nunca parar. Eu sou do segundo tipo”. Sua esposa acrescenta: “A idade vai chegando, o corpo pode não aguentar algumas coisas, mas a mente está muito além. É preciso cuidar da alma”.

Sobre gentes

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A primeira coisa que leio quando pego a Folha de SP é o rodapé da página 4 do Cotidiano. Sim, é a seção Mortes. Os textos sempre me deixam pensando, só que fazem o estilo 'agora, enfim, o fulano tem valor'. Considero que o interessante é dar espaço para essas vidas tão ilustremente pacatas enquanto o personagem ainda pode recortar o texto e mostrá-lo para um ou outro, cheio de si e até espantado pela importância de sua história – não que ela seja algo de mais, mas bem longe de ser algo de menos. Como Pedro, que disse que vai guardar para a posteridade o pedaço de papel que revela suas táticas para permanecer na tranquilidade. Como Mari, que sempre quis que alguém contasse suas peripécias e agradeceu aos risos. Como Albino, que nem é de ler jornal, mas naquela vez fez um esforço. Tão igual disse Eliane Brum: “como se cada Zé fosse um Ulisses e cada pequena vida uma Odisséia”.