Postagens

E(in)terna busca

Tenho andado ocupada na tentativa de desvendar o motivo que me leva a - mesmo depois de tantas translações e rotações – agir vez ou outra tão igual à menina de olhos curiosos que tem como entretenimento juntar tampinhas de  garrafas de cerveja durante a festa e guardá-las no copo plástico, supondo não serem apenas pequenos objetos metálicos, mas um tesouro.

Meio Zé

Naquela manhã, ele acordou meio Zé, refletindo sobre cenas da TV que vira antes de pegar no sono. Elas não paravam de circular por entre seus pensamentos matutinos e as broinhas de milho que comia junto com café. Há décadas ouvindo que início de ano é momento oportuno para recomeçar, ele fez uma triste analogia. Recomeçar mesmo só aquelas pessoas que sobraram das enchentes e tragédias fariam. Elas não têm mais paisagem, carro, casa, família, celular, cachorro, álbum de fotos.

sunday smile

Imagem

Momentos em fragmentos

Imagem
No clima das retrospectivas, pensamentos retirados do diário pessoal 2010. 28 de fevereiro:  Acordei 9h44, mas o rádio relógio está uns nove minutos adiante. Os armários precisam ficar de portas abertas por conta da umidade desses dias. A chuva não cessa. 22 de março: O fim de semana foi divertido. 5 de abril: Parece que estou ficando adulta, pois não me atraso. 6 de abril:  Hoje a Tuquinha morreu. Depois de mais de 15 anos junto conosco. Foi o tempo que lhe deu fisgadas, tirando sua alegria e reflexos. Fica a saudade da cadela malandra que só fazia o que queria e que sabia como pedir carinho. 15 de abril: Estava andando pela rua sem enxergar, apenas indo. Foi quando um homem sentado na calçada, do tipo andarilho, perguntou: - “Por que você não olha para mim?” Continuei, mas a questão ficou na cuca. 1º de maio: Feriado, sol, vento de outono, céu azul, pôr-do-sol fotogênico, colete preto, franganza, lado a lado, gran torino. Logo dia dois. 12 de maio: Uma...

Dans la rue

Imagem
Uma senhora de lenço amarrado na cabeça, meia calça cor de pele, saia e blusa vermelhas e sacola plástica na mão descia a rua em cadência. Lentamente seus sapatos gastos e pretos formavam os passos, num esforço para manter a velocidade média baixa. Ao seu redor, o tempo se espreguiçava e lhe desviava o olhar. Imune, ela estava contente, há mais de séculos voltando para casa. Logo chega e quando chegar ela vai fazer um bolo salgado de fubá na antiga panela de ferro.

Meia cinza, meio azul

No dia em que conheci a senhora do homem das horas, ela não fez questão de sorrir. Mas o jeito como me olhou ao saber o que eu queria deu mostras de que há muitos segundos me esperava; logo gritou para o marido: “a moça do jornal quer ouvir as tuas histórias, em que horário você pode?”. Canelas rechonchudas, dificuldade para andar, rosto sereno, tricô a tiracolo, jeito bondoso e direto, sem enfeitar demais, sem reclamar. Ao contar os causos, o marido se referiu a ela vez ou outra. “Eu e Maria vivemos no nosso paraíso, porque não brigamos”, e a amada deixou escapar um riso de canto, balançando a cabeça como quem se acanha e quer mais. Quando ele entrou nos planos futuros, mostrando com gestos tudo o que pretendia modernizar no comércio, ela ficou em silêncio, depois me falou baixinho, com a certeza de que o esposo não ouviria: “Não ligue para esta parte, ele sonha, mas já estamos perto dos 70”. No decorrer dos minutos criamos uma relação de confiança, dia ou outro eu visitava o casal. A...

Apenas começamos

Imagem