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Rei, capitão, soldado, ladrão

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Com nuvem carregada de cinza ou em dia de brilho solar; abraço, pulo, bola, choro, riso, abraço. Ainda hoje a mesma canção de outrora no boleio, 'com quem você pretende se casar?' Na vila à beira da BR 277, eles vivem como quem sabe que é melhor ser alegre que triste. Como quem não tem outro jeito. Crescem de uma maneira ou de outra  e, aos 13, não cabem muito bem no lugarejo.

Inesperado

Cansaço, mormaço.  Menino de canelas finas, uns dez anos, havaianas quase arrebentando e cicatriz perto do olho esquerdo. Sem nada nos bolsos do calção jeans, parado na calçada para desfrutar as últimas unidades de um pacote de bolacha recheada sabor chocolate da marca mais barata. - Tia, tem algum dinheiro? - Não, nada - respondo sem ânimo e continuo. Ele também atravessa a rua e vem em minha direção. - Pode me dizer as horas? - 18h23. Continua andando por perto, comendo primeiro o recheio e bem devagar. - Eu gastei meu único real com a bolacha. Você não tem nem dez centavos? - Já falei que estou lisa. Acha que estou mentindo? - Claro que não, eu acredito na senhora - responde sem convicção, agora já ao meu lado. Ele insiste, para sensibilizar: É que eu deveria ter comprado café, mas estava muito caro... - E você quer que eu crie um dinheiro para você? - Só se você fosse uma mágica, mas eu sei que essas coisas são mentira, tudo ilusão. - Será? - Só as coisas de Deus são verdadeira...

à margem, as melhores

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As pessoas mais humanas que encontro debaixo das nuvens quase nunca estão na organização de eventos, chefia de escritórios ou ocupando cargos de relevância  nas empresas, no Estado, na Igreja. Como o João e a Cleuza, que conheci meio sem querer nos fundos do quintal da festa. Se calados, ambos tendem ao árido, porém, quando conversam, lembram o cheiro de chuva em grama recém-cortada. Eles saíram de casa após o almoço, para quiçá conseguir umas latinhas na tarde do domingo de céu azul. Não deu muito certo, outros vieram antes, mas eles não se abalaram e aproveitaram para contar experiências outras,  como sobre a rotina de trabalho de juntar recicláveis e da necessidade de ir à colheita para conseguir um extra em tempos como estes. Embora juntos há uns dois anos, num puxado construído pelo próprio João, "em um lugar onde tomara ninguém vá reivindicar", o casal não tem foto alguma para enfeitar os cantos. Fiz, então, o favor, de boa vontade e de graça, mas tão logo a Cleuza ...

Olhai e vede

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A beleza não é luxo, é uma necessidade daqueles que são feitos da mesma farinha. Farinha, ovos, fermento, assa um tiquinho. Então surge um corpo pequeno, pensante, cheio de querer ser descobridor de coisas. Nasce sol, põe-se sol, não importa o tanto de dinheiro na conta, todos têm apenas o cotidiano, como a dona Evanir. Seu dia a dia raramente é algo fora do comum, quase parece regra ser ordinário. Mas, no fim, todos entendem destas coisas, e ela pega umas flores de plástico para colocar em cima do armário da cozinha. A beleza não é luxo. É necessidade. E numa prece, mesmo sem saber se diz o que diz, a mulher recita os versos de Adélia: 'Louvado sejas porque eu quero morrer, mas tenho medo e insisto em esperar o prometido. Uma vez, quando eu era menina, abri a porta de noite, a horta estava branca de luar e acreditei sem nenhum sofrimento'.

Isso não me cheira bem

É interessante perceber como as memórias se interligam com cenas, cheiros e objetos e tudo se ajeita de uma forma ou de outra para ficar bem escondido na caixa empoeirada que guardamos dentro de nós. De uma forma incrível aquele protetor solar me traz à mente o Carnaval de 1994, quando choveu todos os dias em que ficamos na praia. O cheiro do xampu de cereja me lembra os meses na cidade que parece uma bacia. O amaciante de embalagem azul ‘é’ uma tia minha, porque ainda na infância a visitei e senti o aroma vindo das roupas que estavam dançando no varal. O brilho labial de cappuccino - já deve ter saído de linha - lembra uma amiga do colégio e os segredos através das cartas. Cri-cri doce de nozes faz eu reviver um dia bonito do ano passado. E tem mais um monte de coisa.

Lote 20

Quando tudo vai mal, é só sintonizar no canal Terra Viva, bem no horário dos leilões. Um modo estranho de relaxar, alguém dirá. O fato é que é indispensável deixar a TV no mudo, claro, ou o efeito vem ao contrário. O catálogo de cavalos e éguas é bom para começar, eles correm de um lado para o outro, brilhosos, quase livres, em takes de 5 segundos não muito bem editados. Tão bonito. Se for leilão de ovinos, é engraçado: as borregas gorduchas andam devagar até alguém que não aparece no vídeo as espantar, então elas dão uma corridinha leve, simulando interesse, as danadas até bocejam. De bois sinceramente não sou muito fã. [Vez ou outra assusta olhar no lado superior direito da tela: 2+2+20 parcelas de R$380 e sempre aumentando]. O programa funciona como aquela antiga tática de 'contar carneirinhos', logo depois de uns minutos de leilão, o sono chega e me leva a pastos tão-tão distantes.

A figura da praça

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Por mais de sete vezes pensei em conversar com o homem da praça. Sempre algo acontecia e esse pensamento saía do topo da lista das prioridades elencadas na cabeça. Quando lembrava, ele já tinha sumido. Geralmente eu cogitava deixar o papo para o outro dia, afinal, ele sempre estava lá, eu também... Sua chegada acontecia em alguns horários específicos, marcados, e logo o homem aparecia acompanhado de sua magrela-vermelha-modelo-1972.  Chegava, fazia o reconhecimento panorâmico de campo, colocava as mãos na cintura, franzia a testa emborrachada e logo em seguida sentava num dos banquinhos cinzas de concreto. Ali continuava, mirando sem pressa, (cotovelo encostado na pequena mesa quadrangular, mão segurando o peso da cabeça, o peso de tudo) guardando com maestria um punhado dos seus segredos. Mas acabei não mais estando por lá, e, confesso, vez ou outra ainda me pego criando enigmas para a figura da praça. Talvez fora o senhor das marionetes, quem comandava todo o espetáculo vespert...