Postagens

Durante a via casa-trabalho.

Para não variar, a manhã estava nublada. Na descida da Rua Marechal Deodoro, em baixo de um boné promocional, Seu Antonio mostrou os dentes com avidez, na forma de um sorriso familiar, e logo soltou um "bom dia!", daqueles que quase nos convencem de que realmente tudo vai ser muito bom. Pela sua presença, é certo que se tratava de uma segunda-feira, quando ele passa nas redondezas para recolher as sacolinhas de mercado com recicláveis, na frente das residências. Mais abaixo, no cruzamento com a Rua Dona Noca, uma Variant TL 1971, motor 1600, modelo bem-antigo-até-retrô, de cor cinza meio azulado, estava com uma carga de grandes bolas de coloridas de plástico (daquelas que a gente ganha em jogos de parques de diversão) numa rede acoplada no teto. A cena foi inusitada. Já na Praça da Bandeira, uma senhora de poucos quilos carregava uma mochila que parecia pesada, mas a mulher tinha o rosto sereno e estava contente. Logo ouvi o barulho do trem que cruza o vilarejo. Eita!

espírito natalino...

Imagem
I ntrepidez talvez seja um adjetivo que caiba à definição do menino que agora usa camiseta vermelha de detalhe azul na gola. Isso porque ele não teme qualquer coisa e sempre observa as pessoas através do fundo-bem-fundo dos olhos, sem nem se importar com as consequências desse ato tão bravo. Gosta de sentir o medo translúcido nos rostos cansados dos adultos, que desviam a expressão para o lado quando se sentem desmascarados. Acha que não tem o que perder e nem se importa mais em ganhar alguma coisa. A última vez que recebeu um presente desses de fim de ano, foi um caminhãozinho de plástico seco e ruim, logo quebrou, antes da Páscoa. Sabia que quanto mais apelativo e emocionante conseguisse ser no momento de escrever a cartinha - claro, sem pedidos muito caros - mais chances teria de receber uma visita de um carro da prefeitura ou de voluntários. Esses caridosos sempre vinham com câmeras fotográficas ou filmadoras, para registrar. Bondade sem registro não vale nada na hora do relatório....

Sonhos de fim de tarde - parte I

Imagem
Ele vive ali há algumas horas. Ao todo acha que dá uns trinta anos, contando desde quando tinha quase sessenta. Os seus dias vão embora correndo ou rastejando, um atrás do outro, sempre assim. Mesmo quando parece que não passam, no fundo ele sabe que não tem mais volta. Quando chega visita, logo o homem pergunta: "Você me ajuda a achar uma noiva? Mas precisa ser gente séria, porque aí eu posso sair daqui e fazer minha vida". Esse é o seu sonho mais recente. Desde quando ficou viúvo, passou a morar no S.O.S., em Guarapuava. A instituição ampara as pessoas que, inesperadamente, passam a não ter um lar (ou a não caber no que lhes pertencia), geralmente aquelas que estão nas últimas das infâncias e já não desejam muito além da não-solidão. Agora, enquanto escrevo este texto, o que será que ele está fazendo? Talvez imaginando vidas, de olhos abertos, enquanto mantém o olhar fixo na suave dança das folhas com o vento. Deve perceber que é domingo exatamente pelo sorriso das árvores....

anamnese

Não fez calor demais no dia em que a cidade sumiu. A manhã acordou opaca, como algo inédito. Os pássaros meio quietos de canções, o sol ardendo em si maior. A menina estava sentada no quintal de trás do lar tão doce, comendo um pêssego azedo, direto da árvore, carregando toda a chuva dentro dos seus olhos cor-de-mar. (A mesma água que inundou o que existia ao redor algum tempo depois). E ninguém um dia pensou, nem nos devaneios de fim, que esse dia chegaria, não tão cedo. Muitos casais não se despediram e outros nem puderam formar um par; um bocado de crianças não terminou as brincadeiras; uns velhos não conseguiram beber seus cafés-de-nostalgia. Hoje, falando assim, pode parecer invenção, mas foi num dia como o de hoje que a cidade desapareceu, sem rastros de outdoors e neons, sem redenção. Isso foi o que a mulher de pele já bastante usada contou, enquanto apertava a testa, num esforço de trazer novamente ao coração o que um dia acredita que viveu.

Ele faz cinema

Imagem
O quarto já ganhara uma aparência amigável, depois fúnebre, agora neutra. Ali ele existia, pois naquele lugar pensava. Podia fazer o que fosse, mas não conseguia fugir do seu fim pensante, mesmo quando se perdia pensando em seu desejo de não mais pensar. Intrépido, procurava segurar com todas as escassas forças o momento, os sons, os aromas. Era quando sentia intimamente sua pele envelhecer, num desespero ritmado, e então percebia que se tratava de um instante de aventura ou como leu um dia: da compreensão da irreversibilidade do tempo. Estava só, deixando-se carregar o vento. Via o tempo atravessar o vilarejo e a cidade já não morava mais nele. Trouxe à lembrança sorrisos de Cecília, Lígia, Bárbara, Rita, Joana. Nunca é tarde, nunca é demais. Lembrou ter ouvido alguém famoso ter dito que viveu uma 'vida sem tempos mortos'. "Bobagem!". Tudo depende das significações dadas, por isso não acreditava em receitas ou dicas para uma boa caminhada. Por que considerar maus os ...

Daquele dia até agora

Imagem
Elas aparecem aos punhados com suas camisetas azuis, alaranjadas, verdes, brancas, com ou sem estampa. Como embaladas por uma valsa em fuga, somem nas ruas, por trás dos toldos velhos e sujos. Onde todas se escondem quando o céu começa a ganhar tons escuros? Por que é que o Zé sempre cruza o cemitério? Por que olha, arisco, para os três lados antes de entrar? Parece que se esconde, mas de quem? Quase no céu, em cima de um prédio, outro Zé ajeita a massa. Suas mãos ásperas procuram trabalhar o cimento da melhor maneira. Movimentos circulares e depois retos verticais, ele tira o excesso e passa o braço na testa suada. Suspira. Mesmo depois de tantos anos ainda treme quando olha para baixo. O homem assovia uma canção e a brisa passa para, em seguida, encontrar outro alguém. E isso nunca para. Foto minha.

Aos que sabem das horas

Imagem
Quando vejo pessoas que sabem viver com o tempo faço silêncio, por respeito. Para elas não há disputas ou correrias, não há prazo de validade ou peso na consciência. O tempo torna-se apenas o tempo, seguido de prosas, pequenas e boas alegrias, como o gosto do pão quentinho com manteiga derretida ou o barulho dos grilos misturado ao canto dos pássaros no quintal. As horas são música, o sol da tarde é consolo e o anoitecer, despedida, mas logo um reencontro. Nesta semana conheci o Seu Osvaldo. Ele sabe dessas coisas, eu sei que ele sabe. Foto minha.