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domingo, 5 de agosto de 2012

Procura-se: ferreiros

De tanto ver a brasa dar o alaranjado intenso ao ferro, lembrando a cor do Sol, e através de um martelo ou de uma marreta fazer o pedaço de aço em cima da bigorna ganhar a forma que imaginara, José Rogal, 73 anos, pegou amor à profissão...
O início da sua trajetória aconteceu há cinco décadas, após ter sido aprendiz de um cunhado. “No começo eu pensei que não ia querer continuar, mas o tempo passou e estou até hoje”.
Um de seus filhos, José Carlos Rogal, 47 anos, descobriu através dele a profissão de ferreiro. Embora tenha concluído o curso de Contabilidade e trabalhado num escritório, para satisfazer a vontade da mãe, “que o queria no limpo”, foi a oficina que despertou sua atenção, e é onde ele trabalha diariamente há 25 anos. “Aqui eu me realizo”, diz.
O gosto pela lida é o que dá ânimo para continuar, pois se dependesse das condições trabalhistas destinadas aos ferreiros, Carlos já teria desistido. “É complicado não ter garantia nenhuma”. Pai e filho dizem que o trabalho é sujo e insalubre. O barulho intenso das marteladas, a aspiração da fumaça e o perigo de se acidentar quando o metal sai do controle são algumas das dificuldades encontradas por eles. No entanto, é assim que se sentem felizes. “Quando vejo a peça pronta, percebo que valeu a pena”, conta Carlos, enfarruscado pelo pó do carvão.
Habilidade com as mãos, força física, dinamismo e capacidade artística são algumas características que os ferreiros têm. E claro, a “vontade de aprender”, como enfatiza Carlos. Os oficiais trabalham com metais. Moldam, produzem e consertam objetos em oficinas próprias ou em conjunto com outros colegas, por meio de cooperativas.
Na época de ouro da profissão, José Rogal fazia em média 18 carroças por ano. Essas podiam ser as carrocinhas, utilizadas para passeios de famílias; as carroças, que transportavam a colheita da lavoura até a cidade; os carroções, carregados por quatro ou mais cavalos e usados para longas distâncias ou os carretões, usados no transporte de toras de madeiras, por exemplo. Também produzia arados e outros utensílios utilizados na lavoura.
Agora, a modernização das indústrias torna o trabalho dos ferreiros cada vez mais escasso. Logo após José ter se aposentado, ele passou o negócio para o filho “fazer a vida”. Na época, há cerca de 15 anos, os pedidos estavam abundantes. No entanto, foram diminuindo e logo Carlos sentiu que não conseguiria seu sustento através da Ferraria se não abrisse um leque de opções.
Foi então que passou a trabalhar com miudezas, produzindo objetos de utilidade geral. “Se a pessoa me traz uma imagem de uma revista, de qualquer coisa, eu copio e faço de ferro”, explica. Para provar que caminhou no compasso do tempo, Carlos conta que já fez até uma peça de computador, para ser colocada dentro do gabinete, no CPU. “O rapaz trouxe para mim e disse que não conseguia encontrar outra igual, então eu produzi”.
No dia da entrevista, um cliente foi buscar um suporte para mangueira doméstica que tinha encomendado de Carlos. “Ficou bonita e resistente”, constatou o freguês. Ao que o ferreiro respondeu: “E eu te dou garantia, se der algum problema, traz aqui”. É assim que a relação entre as partes acontece, na base da palavra e confiança. Em algumas vezes há prejuízo, mas, em geral, os clientes honram o compromisso acordado.
Hoje em dia José Rogal apenas auxilia Carlos em alguns serviços, mas não fica direto na oficina. “Eu não gosto muito desses trabalhos que ele pega para fazer”, confessa. “Ele já solda melhor que eu, embora tenha aprendido comigo”, acrescenta o pai. É comum que a profissão de ferreiro seja uma tradição familiar, passada de geração em geração. Seguindo essa lógica, um filho de Carlos aprendeu com ele o ofício, todavia, parece não se interessar em viver disso. “Até porque hoje em dia não temos tanta demanda”, fala. O rapaz trabalha como entregador em uma farmácia. Assim como acontece com os alfaiates e sapateiros, os ferreiros encontram dificuldades no momento de achar aprendizes.
Quando questionados sobre o fim da profissão, pai e filho têm uma visão semelhante. José Rogal é mais otimista, olha para Carlos e pergunta: “Acabar mesmo acho que nunca vai, né?”. E recebe a resposta: “Trabalho sempre tem, ainda mais na área dos consertos, mas nunca vai voltar a ser como era antes”.
A última carroça que eles produziram foi há mais de 10 anos.


O mestre em carroças
É impossível falar sobre a profissão de ferreiro na região Centro-Sul do Paraná sem citar a história de Gaspar Valenga, figura conhecida. Ele é morador do bairro iratiense Riozinho e iniciou como aprendiz numa ferraria em 17 de março de 1940. Continuou ininterruptamente até 17 de março de 1990. “A minha meta era completar 50 anos como ferreiro”, lembra. Após ter se aposentado, em 1999, entrou na Universidade Aberta à Terceira Idade, projeto da Unicentro, onde recebeu apoio e editou três livros, o último, lançado em 2008, teve como título “Minha Vida de Ferreiro”.
Um dos significados possíveis à palavra recordar é ‘trazer novamente ao coração’. Nesse esforço, Seu Gaspar cerra os olhos para não esquecer nenhum dos detalhes, os quais explicita através de números, o que muito lhe apraz: “Embora eu não esteja exercendo, ainda sou um profissional, então são 68 anos como ferreiro; 62 anos de casado com a Catarina, com quem tive seis filhos; foram 212 carroças feitas, aproximadamente 1000 arados novos e 1500 a 2000 capinadeiras”. Com certeza confeccionou um número maior de carroças, no entanto, nos 11 primeiros anos, enquanto trabalhava como empregado e após a sua aposentadoria, em meados dos anos 70, ele parou de anotar os seus feitos.
Lúcido e realista, acredita que é indispensável a adaptação à época em que se vive, sem lamentar o fim próximo de seu ofício. “Se alguém me dissesse quando comecei, que hoje a profissão estaria acabando, eu duvidaria. Francamente! Nunca pensei nisso”. As sete décadas passaram feito um rio, levando as certezas embora. “Chega o tempo em que a gente precisa se conformar e, se eu não acreditava naquela época que minha profissão seria extinta, agora não me causa admiração, porque o mundo é outro. Temos estradas, milhões de veículos. Hoje a maioria das pessoas nem conhece a minha profissão”.
Quando seu pai lhe perguntou se gostaria de ser ferreiro, Gaspar tinha 17 anos, e logo se animou. Era uma das profissões mais valorizadas naquele momento histórico, indispensável para a economia. Além disso, houve um segundo fator que lhe incentivou. “Na lavoura falavam muito que os ferreiros tinham sorte com namoradas e eu me ouricei quando ouvi”, recorda, aos risos.

Ele garante que de nada se arrepende. “Se por acaso houvesse uma maneira de começar tudo outra vez, eu começaria com muito prazer e muita alegria a minha vida da maneira que eu comecei naquela época: na bigorna”.
Segundo Valenga, em toda esquina poderia ser encontrado um ferreiro e como confirma João Rogal, todos tinham trabalho suficiente, sem disputar clientes. Gaspar relata que é nesse sentido que está a maior importância de ter sido um ferreiro. “Eu consegui, primeiramente, uma multidão de amigos, que acabaram se tornando praticamente nossa família”.
O coração aperta ao se lembrar dos colegas. “Trabalhei com umas 200 pessoas. Tenho uma lista com os nomes. E só têm uns três ou quatro vivos... Mas Deus está me conservando para eu venerar os que já se foram”, lamenta. Ele está com 86 anos.
João Luiz, um dos filhos de Seu Gaspar, aprendeu com ele o ofício e ainda o desempenha. “Ele não trabalha tanto por gostar, mas para aumentar a aposentadoria, complementar a renda. Mas não é para sobreviver disso”.
O ferreiro conserva suas ferramentas guardadas. A forja é um sistema onde se trabalha para dar a forma desejada ao ferro. É composto pela fornalha, martelos, tenazes e líquidos de arrefecimento. Além disso, há o fole, usado para atiçar o fogo, e a bigorna, que completam o que é básico para o trabalho. Todos estão conservados na oficina conjugada à casa da família.
Durante os anos de trabalho, Valenga não teve condições de manter empregados. Por isso, não passou seu conhecimento a muitas pessoas. Sua esposa, Catarina, foi por muito tempo a sua ajudante. “Eu sempre agradeço a Deus por ter me dado uma esposa com disposição. Ela cuidava da casa, fazia comida, limpava tudo, lavava roupa, rachava a lenha, capinava a horta e trabalhava comigo, que fenômeno, né?”.

Mas Seu Gaspar confessa que, vez ou outra, sonha com o barulho do martelo na bigorna. “Tim, tim, tim! E estou puxando a chapa, logo está vindo chuva e, se vier, vai apagar o fogo... Ah, enquanto eu tiver vida, vou ter a saudade”.



Publicado originalmente no jornal Hoje Centro-Sul, em janeiro de 2010.

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