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segunda-feira, 18 de junho de 2012

O sonho de um casal

Questionados sobre o sonho da vida, o casal respondeu sem pensar duas vezes: "uma casa com água saindo da torneira e luz brilhando na lâmpada". Não há nada que eles queiram mais. Em pleno século 21, Neuci, 42, Joanir, 57, e os quatro filhos possuem uma rotina bem comum de ser vivida pelos idos de 1940.



Banho só de bacia, com água gelada e um tanto marrom, vinda direto de um poço do quintal, que não se sabe se é pura. “Nunca ficamos doentes, não deve ser tão suja”, ponderou o marido, que aparenta mais idade do que a que tem, pela dureza dos dias de lida debaixo do sol, sempre em trabalho pesado e de recompensa insuficiente. “Hoje me doem as cadeiras, às vezes não consigo dar conta de ajudar ela [Neuci]”.
À noite, velas alumiam com fraqueza o único cômodo da casa de 15 m², repleto de frestas amplas por entre paredes e teto, que fazem chover bastante dentro do lar. Hoje em dia, nem mesmo vela está com preço acessível e um pacote com cinco unidades dura no máximo duas noites. É sob a escassa iluminação da parafina que as crianças fazem deveres da escola. Até 21h30, no máximo, todos dormem, sem outra opção. “A escuridão é muito grande aqui”, revelou a esposa, que não tem muitos dos dentes e, também, quase não sorri.
Sem telefone para contato, sem cadastro em projeto de transferência de renda do governo e sem móveis, eles são como vidas que ninguém enxerga, fincadas no canto do Paz e Bem, em Guarapuava. Há um ano e meio residiam, sob as mesmas condições, num casebre do Jardim Planalto, mas trocaram de morada por considerar o negócio lucrativo. “Aqui o terreno é mais firme, lá afundava o pé com qualquer garoa”, comparou Joanir.
No quintal, eles plantam milho, mandioca, couve, cebolinha, banana e outros alimentos que ajudam a não padecer de fome. Mas nunca tem como ter certeza de que conseguirão dinheiro para comprar a mistura. Cada novo dia é arriscar no desconhecido e não há diferença entre terça-feira e domingo. Sempre é necessário sair do bairro rumo a outros, a fim de catar sobras que tenham valor no mercado dos recicláveis. 
Algumas vezes se apropriam de bens jogados fora, como a cama tubular branca, que é onde dois dos filhos agora dormem. Pai e mãe estendem o colchão no chão. Quando faz muito frio, o fogão a lenha tem papel importante.
Sua triste sina, segundo o próprio Joanir, é ter nascido pobre e honesto. A constatação doeu ao ser dita. Vestido de uma humildade de outras épocas, ele não se envergonha de pedir ajuda e tira o boné para a fotografia. “Quando vejo lenha em algum lugar, eu pergunto para o dono se ele pode dar algumas para nós, e também pedimos comida quando vemos que não tem outro jeito”, relatou.
Neuci reflete esperança de que a vida não seja apenas repetição de geração para geração: “vamos seguir lutando. Três dos nossos filhos [Joeni, 9, Cleide, 11, e Juliana, 13] estão estudando, como nunca fizemos. Nós nos sacrificamos um pouco, mas eles vão para a escola com uniforme e material, quem sabe com eles a vida seja diferente”, ansiou.
Eles não ouviram o discurso de posse de Dilma Rousseff, nem viram a cerimônia, pois nunca tiveram uma televisão. “Para ver TV, só se formos aos vizinhos que têm luz em casa”, contou Joanir (na sua rua outras famílias vivem nas mesmas condições). O radinho a pilha estava sem pilha no primeiro dia de 2011. Mas uma das ênfases da presidenta foi a luta pela erradicação da pobreza extrema no país. Mesmo sem ter ouvido aquelas palavras, há muito tempo o casal espera que a luz chegue, por qualquer via que seja.



Publicado originalmente no jornal Diário de Guarapuava, em janeiro de 2011.

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